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Jean, um Brasileiro

   S Á B A D O ,   4   D E   J U L H O   D E   2 0 0 9

Jean Charles, de Henrique Goldman, 2009, 90 Min: ***.

Meu antigo professor de filosofia do ensino médio – um cara muito louco que todo mundo chamava de Andy Warhol por causa das roupas extravagantes que usava e do corte de cabelo underground que desfilava pelos corredores do colégio - dizia sempre que bastava muito pouco para que pessoas comuns se transformassem em heróis e que seus nomes ecoassem pela história da sociedade. Muitas vezes bastava uma tragédia para que suas vidas fossem exploradas a níveis indescritíveis. Quando saí da sala de cinema, ao final da projeção de Jean Charles, filme de Henrique Goldman, entendi perfeitamente o que ele havia dito na classe há quase 15 anos. Quem era Jean Charles de Meneses até então? Um cidadão comum entre tantos outros tentando ganhar a vida no exterior da forma mais competente que pudesse. No entanto, olhe hoje o legado deixado por esse rapaz confundido de forma bárbara pela polícia inglesa com um terrorista muçulmano. E mais do que isso: olhemos o mundo que nos rodeia. O que ele se tornou nas últimas décadas.

 
A película, mais do que um simples filme-homenagem, é um testemunho sincero, sem recalques ou clichês, da vida de milhares de brasileiros que gradualmente abandonam sua pátria – uma nação imperfeita que não reconhece, muitas vezes, o talento de seus filhos, relegando-os a vidas subalternas, empregos subalternos, existências subalternas – movidos pelo desejo de crescer (não só profissionalmente, mas também como seres humanos). E que o final trágico dessa história não seja simplesmente um aviso para que muitos pensem: “Veja só no que dá morar no exterior. Isso é vida? Prefiro ficar por aqui mesmo”. Nada disso. A verdade por trás disso é muito pior, muito mais agressiva do que qualquer demagogia dita.


O protagonista dessa saga (vivido de forma intensa pelo sempre carismático Selton Mello), acompanhado de sua prima e por inseparáveis amigos é, além de um bravo, um indivíduo que precisa pôr a toda prova o seu caráter e senso de discernimento (mesmo nas questões mais efêmeras), sendo muitas vezes visto pela sociedade como alguém sem ética ou hipócrita. Entretanto, que outra maneira há de sobreviver num mundo onde a competição feroz é pré-requisito básico para conquistar seus objetivos? Existem regras pré-formuladas? Um livro onde se justapõem normas de conduta a serem seguidas visando o sucesso ou a obtenção da felicidade? Se existe, que me mostrem, pois até hoje não vi nenhum.


Em poucas palavras, Jean Charles é uma produção cinematográfica que mais parece uma enciclopédia de sobrevivência, um manual sobre quando, onde, por que e de que maneira dissimular (dependendo da necessidade com que se vai deparar ao longo da vida). É a história daqueles que não desistiram de acreditar e que vão continuar tentando até o último dia de suas vidas, vasculhando nas lacunas do cotidiano um acesso a uma vida melhor, sem tanta hipocrisia, violência e desrespeito.

 


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Manipulações e mídia

   S Á B A D O ,   2 7   D E   J U N H O   D E   2 0 0 9

Intrigas do Estado (State of Play), de Kevin MacDonald, 2009, 127 Min: ****.

São as mais diversas as críticas sobre o jornalismo nesse mundo globalizado em que vivemos. Fala-se a todo o momento em imprensa marrom, que os principais jornais e tablóides se venderam aos desígnios do mercado empresarial (o que inviabiliza diretamente uma crítica profunda a determinados setores da sociedade – setores esses de abrangência elitista - que cometam quaisquer espécies de delito ou desonestidade), que o tempo dos verdadeiros jornalistas, os investigadores que entravam de cabeça nas grandes histórias a serem decifradas, já se foi, em suma, que o que existe hoje é uma gazeta de fofocas mais interessada no mundo vazio de celebridades e desportistas e em tópicos de somenos importância. Saudosa a era em que Carl Bernstein e Bob Woodard expuseram a nu o escândalo Watergate em que o Presidente Richard Nixon envergonhou a América de forma grandiloquente! E é exatamente esse lado heróico da mídia que o cineasta Kevin MacDonald faz questão de resgatar em seu excelente Intrigas do Estado, refilmagem de uma recente série de sucesso inglesa produzida pela BBC.


A história gira em torno do assassinato da assistente do congressista norte-americano Stephen Collins (Bem Affleck) na estação do metrô e como esse crime se cruza com a investigação que o jornalista Cal McAffrey (Russell Crowe), do Washington Globe, está realizando sobre duas mortes ocorridas em outra região da cidade. É quando esses dois mundos se cruzam que uma série de especulações e motivações financeiras envolvendo uma poderosa corporação de cunho militar que a carreira do político, bem como seu casamento e (se permitir) sua vida podem vir por água abaixo. O dilema que envolve McAffrey nessa questão é enorme: ele é amigo dos tempos de faculdade de Collins, amante de sua esposa e fica preso entre a decisão de relatar a matéria na íntegra ao jornal que paga seu salário (e que precisa urgentemente de um furo para aliviar a pressão sofrida pela crise global) e manter sua amizade de longa data.


Intrigas do Estado é pura dinamite no mais alto grau do termo. Seguindo um ritmo vertiginoso bem ao estilo de produções como Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, Rede de Intrigas, de Sidney Lumet e O Informante, de Michael Mann nos apresenta um retrato vivo e ácido sobre a atual posição da imprensa no mundo contemporâneo: uma profissão que se rendeu ao caráter de indústria relegando as verdades que deveriam ser postas em xeque a segundo plano. O personagem de Crowe nada mais representa do que o resquício de vida inteligente dentro de um mundo cujo papel elucidativo e investigador foi perdendo terreno de forma gradual ao longo dos anos para simples interesses monetários e jogos de poder nebulosos. Nunca me esqueço nessas horas do termo que consagrou a imprensa como aquilo que ela é hoje: o quarto poder. Um poder, definitivamente, tão perigoso quanto (se não maior) qualquer ministério ou instituição política.


A verdade por trás da película é uma só: o que sobrará da mídia se continuarmos a trilhar esse caminho de gratificações constantes e planos de vendas como fator decisório na hora de montar a pauta a ser publicada pelas redações? Sinceramente, tenho receio do que verão as futuras gerações de leitores, já tão mal influenciadas por veículos de menor estirpe como MTV, Orkut, My Space, Twitter, entre outros. Será o fim dos tempos, como propôs Shyamalan em sua última película de abordagem ambiental? Esperemos que não.





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Uma Paixão Internacional

   S Á B A D O ,   2 0   D E   J U N H O   D E   2 0 0 9

Cada um com seu Cinema (Chacun Son Cinéma), curtas-metragens de vários diretores, 2007, 119 Min: ***1/2.

 

A primeira vez em que pisei sozinho numa sala de cinema eu tinha por volta de meus 12 anos, era uma sala dessas de subúrbio, mas estilosa, e o filme em questão não era nenhuma megaprodução que se tornaria obra-prima com o passar do tempo. Tratava-se de Crocodilo Dundee, uma comédia com o ator Paul Hogan, uma espécie de Indiana Jones australiano que vinha para a cidade grande e se metia em muitas confusões. Mesmo não se tratando de uma película grandiosa, aquela experiência mudara para sempre minha vida. De lá para cá só fiz repetir o gesto. Muita coisa mudou na indústria cinematográfica nos anos seguintes: os filmes tornaram-se mais caros, as salas de rua deram lugar aos kinoplex e Imax da vida, o cinema mosaico – essa vertente de diretores que transformou em moda contar várias histórias paralelas dentro de um mesmo filme – ganhou força, tomando ares de fina nata da produção audiovisual e os cineclubes, pontos de encontro onde se debatiam as nuances da história após a projeção, tornaram-me meras lembranças das gerações mais antigas. Porém, mesmo com todas essas mudanças existe algo que não se perdeu na sétima arte. E isso definitivamente é a sua capacidade de encantar plateias em todo o mundo.


É exatamente essa nostalgia e esse clima de excitação que o Festival de Cannes, em sua 60º edição, quis captar do público ao propor a 34 diretores que produzissem curtas de três minutos sobre suas relações íntimas com o cinema. Em suma, mostrar o que cada um deles pensava a respeito da paixão que nutria pela sétima arte era a proposta da inteligente produção Cada um com seu cinema. E passadas suas quase duas horas de projeção, o que se percebe claramente é que a relação existente entre público e tela é muito mais do que um mero fanatismo. É uma catarse digna de verbete nas enciclopédias de psicanálise e tratados de psicologia.


Aqui o que se vê é um imenso mapa sobre todo o mundo que rodeia os frequentadores de cinema e suas preferências cinéfilas: as filas irritantes, os espectadores falantes, o cinema como história de vida dos casais apaixonados, os segredos que as salas de projeção ocultam de forma brilhante, os olhares sedutores, a busca por encontros furtivos, as reações as mais diversas (ódio, espanto, emoção, amor, alegria, dúvida, desconforto), os imprevistos (o filme que queima no projetor, a energia que acaba ou o gerador que pifa), os títulos curiosos dos filmes, as indecisões na escolha de qual filme assistir. Poderíamos ficar anos aqui enfileirando características e ainda assim não concluiríamos um perfil exato desse mundo mágico onde imagens e sons se entrelaçam formando uma sinfonia única.


Destaque para os episódios dirigidos por Claude Lelouch (sobre o casal que se conhece e administra sua relação amorosa dentro de uma sala de cinema), Roman Polanski (e sua visão muito bem humorada sobre o cinema erótico), Takeshi Kitano (ironizando os acidentes que acontecem nas salas de cinema quando menos se espera), Nanni Moretti (que apresenta em seu curta uma grande homenagem aos cinéfilos mais exaltados) e Zhang Yimou (e a incrível história do garotinho que aguarda ansioso antes do filme começar).


O filme é, em poucas palavras, quase uma enciclopédia para se entender o que é essa fábrica chamada cinema. Por que apaixona tantas pessoas e como consegue continuar se mantendo viva num mundo repleto de tecnologias – até mais avançadas do que ela – sem perder seu vigor de centenária? Pois toda que vez entramos em uma sala de projeção e aguardamos ansiosos o apagar das luzes (termômetro síntese de que o espetáculo irá começar), sabemos de cor tudo que acontecerá depois, mas mesmo assim aguardamos, pois em algum momento o surpreendente dará as caras nos fazendo ficar impressionados mais uma vez.


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Quem somos nós para fazermos o papel do Estado?

   S E G U N D A ,   1 5   D E   J U N H O   D E   2 0 0 9

Zona do Crime (La Zona), de Rodrigo Plá, 2007, 97 Min: ****1/2.

 

O ser humano tem uma estranha mania recorrente de reclamar de tudo: reclamamos das autoridades que não fazem seu trabalho como devem, reclamamos da falta de saúde nos hospitais, da falta de boa educação para nossos filhos, da falta de empregos, da falta de transportes públicos decentes, de tantas pessoas morando nas ruas, da impunidade que rola solta, da intolerância de certas esferas sociais, do aquecimento global, da indústria do consumismo generalizado, do...Chega! Essa lista é estrondosamente longa e não pretendo que essa crítica seja idem. A questão que realmente me interessa é: E nós, cidadãos? Fazemos a nossa parte? Temos do que reclamar porque realizamos tudo a contento, dentro das mais estritas normas de conduta e ética vigente? Segundo a visão de Rodrigo Plá, diretor por trás do extraordinário Zona do Crime, com certeza, estamos bem longe disso.


A zona é um condomínio de luxo cercado de muros e vigiado por câmeras 24 horas por dia. O lugar ideal para aquelas pessoas que procuram uma solução para a violência que impera em nossa sociedade capitalista. Pelo menos, assim parece. Porém, mesmo um lugar tão fantástico quanto este, acima de qualquer suspeita, não está livre de sofrer reveses e/ou acidentes. E é justamente o que acontece quando, decorrente de uma tempestade, um outdoor desaba permitindo que três adolescentes decidam invadir o complexo residencial para roubar. Com o insucesso da tarefa, dois deles são assassinados e o terceiro fica preso dentro da microcidade, tentando arrumar uma maneira de escapar. Contudo, se depender da vontade dos moradores do lugar, seu desejo não se realizará nunca. Avessos à participação da polícia na investigação dos crimes ocorridos e, posteriormente, a uma caçada ao delinqüente, o condomínio reúne uma espécie de comitê que decide exercer o papel do Estado e resolver eles próprios o dilema. É exatamente nesse ponto que começam as desavenças e conflitos morais que determinarão o destino do jovem encurralado.


O diretor recorre a uma estrutura muito parecida a já usada pelo cineasta M. Night Shyamalan em seu obsessivo A Vila (The Village): incute-se a ideia, principalmente nos moradores mais jovens, de que aquele lugar é um tipo de utopia, um lugar sagrado e onipotente acima das regras sociais e comportamentais de tudo o que se passa além daqueles muros de concreto. E num ambiente como esse logicamente os juízos mais exaltados certamente entrarão em choque, transformando essa panela de pressão ambulante num regime caótico e nada mais do que uma versão em escala reduzida dos dissabores que a sociedade sempre possuiu, mas nesse caso com suas respectivas demagogias ocultadas com muito mais facilidade.


Zona do Crime não é um filme para qualquer tipo de público. Há que se ter estômago para agüentar as atrocidades (o que não significa que seja uma película extremamente violenta) e reviravoltas intensas propostas pela narrativa febril de um roteiro que não pára para respirar um minuto sequer. Um bom exemplar para entender que a sociedade não é simplesmente um repositório de regras e demandas, e sim o que nós fazemos dela (principalmente nos momentos em que a corda está envolta em nossos pescoços e não no de nossos vizinhos e amigos).



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A violência está muito além do que imaginamos

   T E R Ç A ,   9   D E   J U N H O   D E   2 0 0 9

Gomorra, de Matteo Garrone, 2008, 137 Min: ***1/2.

 

A violência tem mais tentáculos do que nossos olhos são capazes de enxergar. Não sei se algum poeta ou ficcionista é autor dessa frase. Realmente não me lembro se a li em algum lugar ou veio à minha mente assim, de chofre. Por isso, deixo-a sem aspas, até que a autoria se manifeste. Contudo, a explanação inicial diz muito sobre a indústria criminal que assola o mundo. Eu sou de um tempo em que cada bandido assumia o seu ponto (boca de fumo, bordel, boate, cassino, ou fosse lá o que fosse), tomava conta do seu negócio e ninguém invadia o espaço alheio. Até no crime, por incrível que pareça, a concorrência era administrada (não como nas corporações empresariais, é verdade, mas era!). Os tempos mudaram e por mais que teime em admitir sentirei saudades dessa época menos guerrilheira do que os dias atuais. Hoje a selva tornou-se inóspita, ninguém se satisfaz com apenas um ramo de negócio. A regra agora é verticalizar (peguei essa expressão emprestada do coordenador do meu curso de graduação, um almofadinha desses que adora falar difícil só para tirar onda de importante), estar por dentro de tudo, opinando sobre tudo. Gomorra, filme corajoso do diretor Matteo Garrone, nesse sentido, é uma exaltação à ganância. Em todos os sentidos possíveis.


O cineasta apropria-se do livro homônimo do escritor Roberto Saviano, o novo Salman Rushdie da atualidade, que vem sofrendo uma eterna perseguição por parte dos verdadeiros personagens da história contada aqui nessa adaptação. A história retrata os meandros da Camorra, organização criminosa de cunho global, cujos negócios fomentam milhões dólares anualmente nos mais diversos ramos de atuação, chegando a ter reflexos na indústria da moda e até – pasmem! – em Hollywood. Girando em torno de algumas das muitas narrativas propostas pelo livro, o cineasta passeia por um mundo de permissividade desonesta, competição desleal, valores deturpados e muita cobiça pelo vil metal. Uma “empresa” que não perdoa quem os trai, independente de idade, etnia, sexo ou classe social, muito menos dá colher de chá a aproveitadores que se sentem no direito de tentar enganá-la. Com a Camorra, não: aqui se fez, aqui se paga.


Muito se fala sobre o cinema violento mundial e seu velho clichê moralizante, tentando explicar os motivos de porquê os criminosos decidiram seguir esse ou aquele caminho, em alguns casos beirando o preciosismo e o ridículo, estragando o desenrolar da trama. Não é o que acontece aqui em Gomorra, cujo único interesse é o fluir dos fatos e não a emissão de juízo de valor sobre esse ou aquele traficante, essa ou aquela facção.


Uma produção muito bem equilibrada (fugindo das mesmices do gênero) que consegue despistar as pequenas falhas de conexão entre as sub-tramas, por vezes confusa, de maneira bem inteligente, não cansando o espectador muito menos comprometendo seu desfecho final. Válido para entender – nem que seja um pouco – a quantas anda o mundo criminoso, chegando a nos instigar sobre qual a nossa participação nesse processo sórdido.


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Quando a verdade é Covarde

   Q U I N T A ,   4   D E   J U N H O   D E   2 0 0 9

Simonal: Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, 2009, 86 Min.: ****.

 

Ouço nas ruas sempre a mesma ladainha: “Queremos justiça”, “Vamos descobrir a verdade”, “Justiça será feita”, “A verdade virá à tona” etc, etc, etc (mil demagogias mais etc). O que é a verdade? Na antiga programação da hoje chamada TV Brasil, o carnavalesco Fernando Pamplona apresentava um curioso programa chamado A Verdade de... (o lugar das reticências sempre era preenchido pelo convidado da noite: um compositor de sucesso, um filósofo, um estilista famoso, um ator de expressão, um dramaturgo, em suma, alguém disposto a discutir, através de perguntas feitas previamente a amigos do convidado bem como a provocadores de seu ofício, as mazelas, virtudes e, claro, verdades da sociedade brasileira contemporânea). Sempre assistia ao programa com um olhar crítico. Não somente pela voz cavernosa de Pamplona, mas também pela saia justa imposta aos convidados que se equilibravam no gelo fino para responder aos questionamentos. A clara noção de que verdade é apenas mais uma versão dos fatos imperava ali às claras. Em geral, aquela com a qual você mais simpatiza naquele momento.


A sensação que tive ao final da projeção de Simonal: Ninguém sabe o duro que dei foi exatamente a mesma. Não há verdade, ídolo, raciocínio ou mesmo boa intenção que substitua a força de uma versão forte (mesmo que mal contada por seus narradores). O Trio de diretores – que desde o princípio da captação de recursos para a filmagem da película sofreu com os maldizeres e insatisfações de investidores que preferiam não mexer nessa colmeia insandecida – nos apresenta um documento sério, vivo e de muito bom gosto de um dos melhores (e piores) capítulos da história da Música Popular Brasileira.


Muito bem amparados pelos depoimentos de vozes consagradas do meio artístico como Chico Anísio, Nelson Motta, Ricardo Cravo Albin, Miéle, os próprios filhos de Simonal (Max de Castro e Wilson Simoninha), entre outros, vão pontuando a doses homeopáticas a carreira de sucesso de um dos maiores ídolos do pop nacional. Ousado, irreverente, criador da pilantragem musical, o típico garganta (aquele cara que conta vantagem mesmo, sem vergonha de se mostrar), O cantor e compositor que orquestrou mais de 30 mil pessoas em pleno Festival da Canção, na Rede Record, talvez seja o melhor exemplo já encontrado em terras tupiniquins para explicar a expressão “astro de primeira grandeza”. Não existe indivíduo nas décadas de 1950 e 1960 que não tenha se deliciado com sua voz nas estrofes de Sá Marina, Tributo a Martin Luther King, Meu Limão, Meu limoeiro, entre tantos outros sucessos.


Porém, como um raio devastador, que dilacera o corpo e alma de suas vítimas, o sucesso incomodou e muito. Senão por seu talento nítido, por seu descompromisso com o período histórico em que vivíamos ou mesmo pelo simples fato de ser negro ganhando mais do que muitos brancos, certamente por ser o bode expiatório perfeito, o filho ou genro que todo governo ditatorial gostaria de ter. Acusado injustamente de mandar agredir o contador e, principalmente, de ser informante do DOPS, órgão de segurança da ditadura, viu sua carreira despencar quando estava no auge, relegado ao ostracismo e, finalmente, a um anonimato incômodo. Inúmeras as tentativas de dar a volta por cima, morreu esquecido: pelos fãs, pelos colegas de trabalho, pela história.


Pensar em qualquer verdade, comprovada em fatos embasados, após uma mostra viva de incompetência e abuso de poder é querer demais. Em linhas gerais, Simonal é o testemunho definitivo de uma era que nos ensinou que ser verdadeiro é, na maioria das vezes, apenas contar uma boa história de forma convincente. Não importa quantos vilões você irá criar (não importa sequer suas identidades). O importante mesmo é que eles paguem no final. O único problema é que nesse caso você pensa que sabe quem é o vilão. Cuidado: você pode se decepcionar!


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