Mais do Mesmo ou Algo Inédito?

(20 de dez de 2017)




Nostalgia pode ser vista como uma característica positiva. Algo que cada um de nós se apega em momentos de incerteza e dúvida, seja uma lembrança, um objeto ou o que quer que seja. É a forma do ser humano manter algum resquício de estabilidade num mundo que está em constante mudança.


Mas nostalgia também possui um lado negativo. Quando uma pessoa se prende de forma teimosa a tradições ou métodos ultrapassados, ou a memórias que não trazem nenhuma consequência positiva. Ou simplesmente se recusa a mudar e seguir adiante.


Tanto na TV quanto no cinema, existe esse conflito entre os dois lados da nostalgia. E não há caso mais emblemático do que Star Wars como pivô nesse atrito. O filme original teve um impacto tão imensurável que qualquer continuação seria comparada, não necessariamente de forma favorável. Isso se tornou inevitável. Quando O Imperío Contra-Ataca foi lançado em 1980, muitos o criticaram por deixar de lado o tom otimista e heróico do filme original de 1977. Quando O Retorno de Jedi veio aos cinemas em 1983, muitos o criticaram pelo tom infantil e a presença dos Ewoks. Com A Ameaça Fantasma em 1999, o alvo da vez foi Jar Jar Binks. Em O Ataque dos Clones (2002) foi o romance entre Anakin e Padmé e o uso excessivo de computação gráfica. A cada filme sempre teve um motivo.


Agora com Os Últimos Jedi foi a forma como o filme fugiu completamente dos "parâmetros" estabelecidos na saga. O que se pode entender disso?


É claro que nenhum filme nesse mundo terá opiniões unânimes. E Os Últimos Jedi está mostrando ser uma obra capaz de dividir opiniões de forma bastante aguda. Mas há de se constatar que existe uma geração que possui certas expectativas. Essas expectativas foram construídas graças ao que foi feito nos filmes originais. À medida que Hollywood se consolidou como uma máquina de continuações e remakes, foi se moldando uma geração que não espera nada além disso. Não espera uma história original, com ritmo próprio, em que seus personagens tomam decisões e lidam com eventos inesperados. A estrutura hollywoodiana raramente permite que se desvie da trama blockbuster. E se agradar aos de maior idade que desejam recriar o gosto da infância for possível, melhor ainda. Quanto mais nostalgia, melhor.


O Despertar da Força foi literalmente um filme construído para agradar a esse gosto nostálgico, em busca do prazer gerado pelo filme original. Foi um derivado do filme original a ponto de recriar o mesmo plot, a mesma estrutura, e uma dinâmica similar de personagens. E muitos críticos foram justos ao apontar este detalhe. Mas a prioridade da Disney e da Lucasfilm era dar uma experiência com este sabor similar ao de 1977.


Com Os Últimos Jedi, Rian Johnson teve liberdade completa para fazer o que quisesses com estes personagens. E como um cineasta consagrado no cinema independente, ele se dedicou a levar esses personagens em novas jornadas dramáticas, tomando decisões arriscadas. Decisões que um cineasta mais comercial como J.J. Abrams jamais faria.


Desmistificar Luke Skywalker e mostrá-lo ao público como um hermita pessimista descrente - fugindo da responsabilidade - foi um golpe para muitos fãs. Mas foi essa uma decisão criativa equivocada? Eu diria que foi consistente se levar em conta toda a doutrina Jedi e todo o trauma de ter descoberto a herança de quem seu pai realmente foi.


Acho que qualquer franquia de cinema ou televisão precisa de espaço criativo. Qualquer escritor merece ter alguma liberdade para tentar algo inusitado. A preocupação é alienar o público? Hollywood vive tanto de erros quanto de acertos. Nada é perfeito. A Lucasfilm e a Disney confiaram seu maior produto nas mãos de um cineasta corajoso. E acho que chega a hora de todo mundo aceitar que toda obra pode ser desdobrada num caminho diferente, com a autoria de alguém com um ponto de vista distinto.


O que não pode é ter gente tão contrariada a ponto de iniciar uma campanha para descanonizar o filme. Falta do que fazer. Cada filme tem o direito de seguir seu próprio caminho. Se quiser protestar, é só não pagar o ingresso. Afinal o público quer mais do mesmo ou algo que ainda não tenha visto? Pessoalmente, quando vou ao cinema, estou procurando por uma novidade, no melhor sentido da palavra.


Cabe também a hollywood a aos executivos entender isso. Coisas novas atraem o público também.



Posted in Postado por Eduardo Jencarelli às 11:43  

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