É fato que quando filmes são lançados no Brasil, sempre há alguém pronto pra bagunçar a tradução do título e confundir completamente o público.


Jornada nas Estrelas: A Nova Geração foi a tradução que usaram para o filme Star Trek: Generations. Mais tarde, o filme foi rebatizado aqui como Jornada nas Estrelas: Generations. Qual teria sido o problema em usar o termo Gerações afinal? Difícil de pronunciar. Péssimo para marketing? Vai entender. Enfim....


No período após a morte de Gene Roddenberry, a Paramount passava por longas discussões e argumentos a respeito do futuro da Nova Geração na TV. A série havia se tornado um sucesso indiscutível, mas a questão de quanto tempo isso permaneceria viável não estava resolvida.


A questão foi resolvida em fevereiro de 1993, quando Rick Berman, produtor/showrunner do seriado, convocou os roteiristas Brannon Braga e Ronald D. Moore para seu escritório. Ele falou que havia passado meses discutindo com o estúdio e que havia sido apontado para produzir os filmes da Nova Geração no cinema, e que eles haviam sido escolhidos para roteirizar o projeto. E com isso, a série teria uma sétima e última temporada para ser concluída enquanto trabalhavam no filme.


A Paramount tinha delineado um plano específico para este filme. Ele não seria apenas o primeiro filme com a tripulação de Jean-Luc Picard na telona. Ele seria um filme que passaria da geração antiga para a nova. É claro que isso trouxe consigo a primeira grande complicação narrativa. A Nova Geração se passava quase 80 anos após a série original. Como fazer com que James T. Kirk tivesse um encontro cara-a-cara com Picard?


A trama é tudo, menos simples. Após os eventos do sexto filme, Kirk e a tripulação se aposentam até que são chamados para participar da cerimônia de lançamento de uma nova USS Enterprise, comandada por uma nova tripulação. Kirk, junto com Scotty e Chekov, participam do evento. Tudo corre bem até que são chamados para resgatar uma nave com refugiados presos numa barreira intergalática. O evento corre como planejado, só que Kirk que foi ajudar o resgate ativando um raio defletor é sugado para fora da nave quando um rombo é aberto. Kirk é dado como morto.


A trama salta 78 anos para o futuro, após os eventos da sétima temporada. Durante a cerimônia de promoção para Worf, a Enterprise de Picard é chamada para uma estação espacial que foi atacada por Romulanos. Eles estavam atrás de um componente químico capaz de implodir uma estrela. Lá, eles encontram o Dr. Soran (Malcolm McDowell), responsável pelo projeto. Ele consegue implodir a estrela local. No processo, Geordi LaForge é nocauteado por Soran, e ambos são resgatados por uma nave Klingon comandada pelas irmãs Lursa e B'Etor. Picard conversa com Guinan (Whoopi Goldberg) e descobre que ela e Soran são membros da mesma raça que havia sido dizimada pelos Borg anos antes, e que a barreira que prendera a nave era um portal para um Nexus temporal onde qualquer pessoa era capaz de reviver sua vida, corrigindo os erros do passado.


Isso leva a Picard confrontar Soran no planeta Veridian III. Soran revela que irá implodir a estrela do sistema a fim de mudar o curso da barreira para que possa reentrar nela, mesmo que a implosão da estrela acaba com 200 milhões de vidas inocentes. Geordi é resgatado da nave Klingon. Picard não consegue impedí-lo de lançar o míssil, enquanto que a Enterprise se envolve numa batalha com os Klingons, que são destruídos. Contudo, o núcleo da Enterprise entra em estado crítico e explode, lançando a seção disco numa aterrisagem forçada no planeta. A estrela implode, matando a todos. Picard e Soran entram no Nexus. Picard revive a vida que podia ter tido, mas não teve. É então que percebe que para restaurar o passado, ele precisará de ajuda. Assim, ele recorre a Kirk. Após convencê-lo de que o Nexus não é real, os dois capitães voltam a Veridian e impedem Soran de lançar o míssil. Infelizmente, Kirk morre na luta. O filme termina com Picard enterrando a lenda e a tripulação da Enterprise sendo resgatada por naves da frota.


De cara se percebe como os roteiristas tiveram de improvisar* para fazer esta trama funcionar. É por esse e outros motivos que o filme não funciona tão bem quanto deveria.


*Uma das idéias originais de Braga era colocar as duas Enterprises em rota de colisão, se enfrentando em batalha. Impraticável, mas interessante.


O início do filme é interessante, mas parece mais um minifilme separado do resto da trama. Há um certo artificialismo nessas cenas, e muitas delas fazem a tripulação da Enterprise B parecer incompetente demais para que Kirk se sobressaia como o herói em meio à crise do resgate. Outro detalhe que se percebe é o uso de Scotty e Chekov em cenas que claramente haviam sido escritas para Spock e McCoy.


DeForest Kelley já estava aposentado. Leonard Nimoy, que já havia trabalhado com Berman na Nova Geração, até foi chamado para dirigir o filme. Contudo, Nimoy não gostou do fato de ter sido chamado quando a trama já estava bem desenvolvida e percebera que a Paramount tinha tanto controle que ele não teria tanta liberdade criativa. Por isso, ele abriu mão da oportunidade. Mesmo Nichelle Nichols e George Takei também não retornaram até porque de certa forma, a jornada do elenco original já havia terminado no último filme.


O filme foi dirigido por David Carson, que já havia dirigido vários episódios da Nova Geração (incluindo o excelente e impactante Yesterday's Enterprise) e também o episódio-piloto de Deep Space Nine (além de alguns outros). Carson era um diretor de TV, acostumado a seguir o padrão estabelecido pelos produtores. No caso, Star Trek era a estética e sensibilidade visual de Gene Roddenberry que foi mantida por Berman. Um dos fatores positivos do filme sem dúvida são seus visuais. Carson sempre se sobressaiu dentre os demais diretores do seriado ao gerar fortes imagens. Com o orçamento e o cronograma de um filme, ele consegue bem mais que isso. É verdade que em matéria de orçamento, o filme não foi nem um pouco mais caro que os anteriores, mas a equipe de Berman já estava especializada em extrair imagens de qualidade dentro dessas limitações, o que fizeram de Generations o filme com melhores visuais desde o primeiro. O orçamento e a escala permitiram também os designers a refazer a ponte de comando da Enterprise, criando um resultado final de alto contraste e impacto visual. Nunca que a ponte seria filmado desta forma durante o seriado, com uma direção de fotografia marcante feita pelo já falecido John A. Alonzo.


A trilha foi composta por Dennis McCarthy, que foi o compositor principal da Nova Geração, Deep Space Nine e posteriormente Enterprise (além de compor vários episódios de Voyager). O estilo de McCarthy sempre foi melódico e contido, bastante distinto dos estilos temáticos e bombásticos de compositores como Jerry Goldsmith e James Horner. Não é a melhor das trilhas, mas se encaixa bem com o teor do filme.


Tematicamente, o filme lida bastante com o conceito de mortalidade. Picard lida com a morte do irmão e sobrinho. Tanto Guinan quanto Soran fugiram para o Nexus para não ter de lidar com a morte de entes queridos nas mãos dos Borg. Kirk consegue morrer duas vezes no mesmo filme. A primeira que foi na verdade sua entrada no Nexus, mas que foi vista como morte por seus compatriotas do Século XXIII. A segunda morte sendo a definitiva.


O filme funciona melhor quando lida com a tripulação de Picard e seus esforços para desvendar a questão de Soran estar destruindo estrelas. Uma subtrama que não tem o mesmo êxito envolve o Comandanta Data instalando o chip de emoção que seu criador, o Dr. Noonien Soong, havia dado para ele no seriado. A tentativa dele lidar com novas emoções não complementa o resto do filme de maneira alguma. E certas situações acabam sendo muito forçadas, sacrificando a integridade do andróide em função de piadas baratas.


Uma cena de Data que funciona bem é a cena na cartografia estelar onde ele lida com a culpa de deixar Geordi ser capturado, e Picard tem de forçá-lo a fazer seu trabalho em descobrir o paradeiro de Soran. Belíssimos visuais e uma bom conflito de personagens que flui de forma natural.


Fica duvidosa também a inclusão das irmãs Lursa e B'Etor, introduzidas na série. Supostamente, isso foi uma decisão da Paramount, em que Klingons tinham que participar como vilões. Mas não faz muito sentido colocá-las como aliadas de Soran, e menospreza um pouco o quanto Soran teria justificativa em sua jornada homicida. Se bem que se fosse para criar simpatia no vilão, não teriam escalado Malcolm McDowell. O motivo principal da inclusão desses Klingons renegados (afinal, ainda tinha um tratado de paz com a Federação neste período) foi uma manobra dos roteiristas para pôr um fim a Enterprise D. O rapto de Geordi e o uso do VISOR para explorar as fraquezas da nave foram uma manobra de roteiro descarada. Destruir a Enterprise de Picard tinha um único motivo: permitir a criação de uma nova nave para futuros filmes.


Não vou dizer que não funciona, até porque tanto a batalha quanto a aterrisagem forçada do disco no planeta são excelentes. Sempre que tinham de separar o disco da seção motor da nave na série, era uma situação forçada demais como se tinham de achar uma justificativa para usar as capacidades do brinquedo*.


Um fato interessante é que Moore e Braga haviam tido a idéia para a aterrisagem forçada do disco durante o seriado. Esta era para ser a trama do episódio final da sexta temporada, mas a iniciativa era complexa demais e cara demais para ser produzida no seriado e foi vetada.


*Ironicamente, o modelo da Enterprise de Kirk usado nos seis primeiros filmes também tinha a capacidade de separar o disco. Inclusive, tinha uma cena semelhante no roteiro do primeiro filme, mas acabou sendo cortada.


O filme cambaleia e cai duro no chão quando Picard entra no Nexus. A idéia de Picard ter uma família celebrando natal não faz sentido nenhum. Em primeiro lugar, numa sociedade que havia superado crenças religiosas ou obsessões materiais, a idéia de celebrar natal não se encaixa. Em segundo, Picard já era estabelecido como um homem dedicado ao trabalho que não tinha tempo para família. Mesmo se Picard tivesse algum arrependimento do rumo que tomou, não acredito que ele tivesse uma vontade tão mundana de ter uma família estilo comercial de margarina. Quem assistiu ao episódio The Inner Light na série sabe muito bem que tipo de vida Picard gostaria ter tido caso não tivesse sido capitão.


Mas o problema maior do Nexus é que Picard não faz nenhum esforço para realizar que tudo aquilo não passa de uma ilusão e passa o resto do filme tentando convencer Kirk do mesmo. Em seguida, tudo que eles tem de fazer é desejar sair do Nexus e assim o conseguem, na época e local mais convenientes possível que é em Veridian III, justamente antes do míssil ser disparado.


No comentário que gravaram para o DVD, tanto Brannon Braga quanto Ron Moore debatem a lógica desse terceiro ato. Se estão numa existência atemporal, com a capacidade de sairem para onde quiserem, porque Kirk e Picard iriam se colocar na mesma situação que Picard havia falhado em prever? Por que não voltar alguns meses antes e não prender Soran enquanto está no banheiro ou algo parecido? Como Braga afirma, não se pode deixar o público fazer essas hipóteses. A trama tem de ser mais bem amarrada.


No fim das contas, o filme jamais iria agradar a todos os fãs. Matar Kirk sempre foi uma decisão controversa. Mesmo Ron Moore, um fã ardente da série original, sentiu forte culpa ao datilografar a morte de seu herói de infância. Esse é outro ponto que Moore e Braga concordam*. A morte de Kirk jamais seria unânime. Para muitos, Kirk é um mito, e a idéia de que se pode matar um mito sempre terá seus detratores. Spock sobreviveu graças à demanda dos fãs e o uso prático do misticismo vulcano. Como humano, Kirk não teria a mesma oportunidade.



William Shatner faz um belíssimo trabalho em sua última aparição como o personagem, mostrando a velhice, o arrependimento e até mesmo uma irreverência cômica que nem sempre o personagem teve mas foi adquirindo com o passar dos anos. Kirk uma vez disse no quinto filme para Spock e McCoy que enquanto eles estivessem juntos, ele jamais morreria. Se morresse, seria sozinho. Felizmente, ele teve Picard ao seu lado em seus momentos finais.


*E já que venho citando o nome deles o post inteiro, recomendo fortemente que fãs assistam ao DVD/Blu-Ray do filme com comentários em áudio dos dois roteiristas. Ron Moore e Brannon Braga tem imensa experiência com a franquia, tendo trabalhado na maioria dos seriados, e são capazes de examinar objetivamente, e com franqueza, tudo que deu errado neste filme. Geralmente, filmes blockbusters não possuem material extra com postura crítica até porque estúdios não gostam sempre de publicidade negativa.


Vale mencionar também que o confronto final entre Kirk e Picard contra Soran tinha um final diferente. Originalmente, Kirk era atingido mortalmente por um disparo de phaser em suas costas por parte de Soran. Quando o primeiro corte do filme foi exibido para executivos da Paramount, todos ficaram silenciosos sem reagir a cena. Logo após a exibição, a presidente do estúdio, Sherry Lansing, se reuniu com Berman e afirmou que o filme era bom, mas tinha um péssimo final, e em seguida financiou uma série de refilmagens. Foi assim que Moore e Braga reescreveram o terceiro ato, criando a situação em que Kirk cai da montanha junto com os destroços de uma ponte após recuperar o controle remoto que opera o míssil. Essas cenas foram filmadas em Valley of Fire, próximo de Las Vegas.


Picard dá uma boa resumida nos temas do filme em seu final. O que importa nessa vida não é o quanto vivemos, e sim como vivemos nossas vidas. Afinal de contas, somos todos mortais. E no fim, Kirk morreu fazendo uma diferença, salvando inúmeras vidas mesmo que não estando no comando de uma nave, que sempre foi seu propósito principal.


No fim das contas, o filme rendeu dinheiro na bilheteria mesmo com críticas divididas. O simples fato do filme colocar Kirk e Picard juntos em cena garantiu que o público viria independente da qualidade. Foi um evento tão badalado e divulgado na mídia que até rendeu uma capa na Revista Time.


Kirk passou desta pra melhor, e a tocha passou para Picard e sua tripulação, com futuros filmes garantidos sob a produção de Berman. Enquanto isso, Berman tinha de cuidar de dois seriados ao mesmo tempo, Deep Space Nine e Voyager.


Fique com a cena final de James T. Kirk, logo abaixo:




Posted in 0 comentários Postado por Eduardo Jencarelli às 12:05  



Enquanto Jornada nas Estrelas: A Nova Geração prosseguia na produção de sua quinta temporada, o produtor do seriado, Rick Berman, encontrava-se em discussões com o alto escalão da Paramount sobre a possibilidade de uma nova série televisiva.


O presidente do estúdio, Brandon Tartikoff, tinha um conceito em mente: Rifleman, que foi uma série do velho-oeste sobre um xerife e seu filho que cuidavam de uma cidade sem lei. Foi a partir dessa premissa que Berman e Michael Piller criaram a série Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine*.


*A série também foi brevemente conhecida no Brasil como Jornada nas Estrelas: A Nova Missão.


DS9 fez o que nenhuma outra obra da franquia ousara fazer: tirou os personagens da nave e os colocou numa estação espacial: um local inerte. Acabaram-se as viagens pelos confins do espaço. Logo de cara, situar a ação numa estação mudaria completamente as possibilidades de histórias que poderiam ser contadas.


Outra decisão de Berman e Piller foi a de não pular novamente várias gerações. DS9 se passou no mesmo período da Nova Geração. Inclusive Patrick Stewart participa do episódio-piloto como Picard, passando a missão principal do novo comandante.


Um elemento central da nova série foi a presença permanente do povo Bajoriano, com presença constante de sua cultura, religião e constantes problemas sócio-políticos. Introduzidos na Nova Geração, os Bajorianos passaram 60 anos ocupados pelos Cardassianos, numa clara alegoria a diversas sociedades que foram igualmente ocupadas. A referência mais óbvia é a dos judeus tratados como subhumanos pela alemanha nazista, sendo forçados a trabalhar em campos de concentração. Esses campos existiram em Bajor, e foram o ponto de partida para várias histórias.


Logo se vê o nível de maturidade que DS9 coloca em sua narrativa. Mesmo na Nova Geração, seria impossível contar certas histórias até pelas expectativas que o estúdio tinha na série conquistar um público amplo. DS9 contava histórias que afugentariam parte desse público. Até por isso, e por se passar numa estação, a série nunca conseguiu ter o mesmo nível de audiência que A Nova Geração. Felizmente, isso deu aos produtores e roteiristas mais liberdade criativa.


Originalmente, DS9 teria como uma das personagens principais a Alferes Ro Laren (vivida por Michelle Forbes), uma personagem que havia sido introduzida na quinta temporada da Nova Geração. Uma Bajoriana que havia cometido um erro que custara a vida de oficiais da Frota Estelar. Contudo, Forbes não queria se prender a mais uma série.


Sem dúvida, um dos elementos mais fortes da série é seu elenco extremamente diverso. Avery Brooks interpreta o Capitão Sisko, um viúvo que perdeu a esposa nas mãos dos Borg, agora responsável por garantir que Bajor cumpra os requerimentos para tornar-se membro da Federação. Só que ao estabelecer contato com os alienígenas que residem dentro de uma misteriosa fenda espacial próxima a Bajor, ele torna-se um emissário dos profetas. Pelo fato da religião ser um dos poucos aspectos que unem os Bajorianos em tempos de crise, os alienígenas da fenda espacial são vistos por eles como os profetas, e Sisko como seu emissário. Um elemento interessante também no episódio-piloto foi a raiva que Sisko sentia por Picard, devido a sua situação com os Borg na batalha de Wolf 359, que tirou a vida de Jennifer Sisko.


Apesar de um certo teatralismo por parte de Brooks, Sisko mostra uma proximidade com um público bem maior que figuras arquétipas como Kirk ou Picard. Ele tem uma vida própria, família e amigos, além de paixões como baseball e cozinha.


Sisko também é responsável por criar seu filho, Jake (Cirroc Lofton). Um jovem adolescente que perdeu a mãe cedo e busca seu rumo na vida. Um aspecto que define seu personagem é o pavor de ficar sozinho. O excelente episódio The Visitor, na quarta temporada, mostra um possível futuro no qual ele disperdiça sua vida para conseguir trazer seu pai de volta após um acidente temporal que o fez desaparecer. O episódio prevê o destino final de seu pai na série, e mostra o quanto ele tem de crescer e aprender que sua vida não pode depender para sempre de seu apego àqueles que o trouxeram ao mundo.


Não só vimos Jake crescer ao longo desses anos, mas também vimos Nog (Aron Eisenberg), amigo de Jake e sobrinho de Quark, que se tornou o primeiro Ferengi na Frota Estelar. Evolução e crescimento perante nossos olhos de espectador.


A personagem, que era para ser Ro Laren, tornou-se a Major Kira Nerys. Vivida por Nana Visitor, Nerys veio de um passado brutal. Nasceu e cresceu em meio a ocupação Cardassiana. Seu pai e mãe morreram quando era criança. Juntou-se a um movimento terrorista para libertar Bajor aos 12 anos e matou muitos Cardassianos até atingir seu objetivo. Foi a primeira personagem a mostrar seu potencial no início da série. Sua dor e raiva geraram muitos momentos fortes logo de cara. Seu preconceito contra Cardassianos também foi motor para várias histórias, até porque era inconcebível para alguém como ela que houvessem aqueles dentro de Cardassia que buscassem soluções pacíficas e questionassem o comando central deles.


Logo na primeira temporada, temos o brilhante episódio Duet, no qual um Cardassiano que sente culpa pela ocupação, muda sua aparência para encarnar um general que havia comandado um campo de concentração e se entrega para Kira Nerys, a fim de enfrentar um julgamento que exponha a verdade sobre os crimes Cardassianos. Isso faz com que Nerys descubra que nem todos os Cardassianos são criminosos ou culpados.


Um objetivo dos roteiristas, logo no início da série, foi a de trazer de volta conflitos entre os protagonitas. Como nas regras do futuro idealizado pelo falecido Gene Roddenberry não permitia conflitos entre os humanos do Século XXIV, a solução foi criar conflito entre oficiais da Frota Estelar e personagens que não eram desse mundo como Kira, Odo e o barman Quark. Personagens que questionavam de cara os ideais da Federação e o mundo quase estéril e perfeito visto durante várias temporadas na Nova Geração.


E o personagem Quark, da raça Ferengi, foi sem dúvida um dos personagens mais populares da série. Com excelente interpretação de Armin Shimerman*, ele deu uma nova dimensão aos Ferengis. Até então, a raça alienígena introduzida na Nova Geração não havia passado de uma caricatura capitalista com enormes orelhas e péssimos episódios que sempre batiam nos mesmos clichês. Em DS9, os Ferengi foram retratados como uma sociedade com o devido respeito e desenvolvimento narrativo. Após a saída de Michael Piller, que foi criar Jornada nas Estrelas: Voyager, o roteirista Ira Steven Behr (também veterano da Nova Geração) assumiu a produção do seriado, e junto com sua equipe passou a dar ainda mais importância ao desenvolvimento social dos Ferengi e a forma como o conservador Quark reagia a essas mudanças.


*Shimerman já havia interpretado vários Ferengis na Nova Geração. O ator Max Grodénchik, que interpreta seu irmão Rom, também encaranara alguns.


Quark rendeu momentos engraçados, mas também mostrou ser um hábil porta-voz crítico a certos elementos da Federação. Um tema central de DS9 foi mostrar as falhas da humanidade e da Federação no Século XXIV, contrariando diretamente a utopia humanista estabelecida por Roddenberry.


Houve também dentre os personagens o Comissário Odo, vivido por René Auberjonois. Odo, uma forma de vida líquida capaz de assumir qualquer forma, tinha origens misteriosas mas dava uma enorme importância a ordem e justiça. Devido a essa função, Odo tornou-se uma figura presente na maioria dos episódios sempre um problema assolava a estação. Quando descobriu de onde veio, teve a decepção de encarar a verdade que seu povo não partilhava dos mesmos ideais que ele. Os Fundadores tinham um império no quadrante Gamma, e estavam montando uma força para atacar e dominar tanto a Federação quanto os Klingons. A justificativa deles era anos e anos de perseguição e preconceitos contra metamorfos. Vingança ao invés de justiça.


Dentre os demais personagens principais tinham o Chefe de Operações Miles O'Brien (Colm Meaney), ex-técnico de transporte da Enterprise que viera com a família para a estação, Doutor Julian Bashir (Alexander Siddig), um médico brilhante que revelou ser geneticamente modificado por seus pais, e a cientista Jadzia Dax (Terry Farrell), uma oficial talentosa cujo corpo continha um alienígena que já havia vivido oito vidas anteriores em outros corpos.


As primeiras temporadas focaram em introduzir os personagens, o mundo onde viviam e a dinâmica dos conflitos vigentes. No final da segunda temporada, o Império Dominion foi introduzido com a revelação de que a raça de Odo estava por trás deles.


Na terceira temporada, Ira Steven Behr e seu parceiro Robert Hewitt Wolfe se viram na necessidade de introduzir uma nave espacial para dar mais mobilidade aos personagens. DS9 dependia exclusivamente de três pequenas naves classe Runabout até então. Com a nova ameaça vinda além da fenda espacial, era necessário mais apoio. Foi introduzida a Defiant, uma nave com enorme poder de fogo, e até a capacidade de tornar-se invisível, tecnologia disponível graças a um novo tratado com os Romulanos. Ao contrário da Enterprise, esta era literalmente uma nave de guerra.


Já na quarta temporada, o estúdio queria que DS9 desse uma sacudida para atrair mais público. Foi aí que Berman sugeriu reintroduzir o personagem Worf (Michael Dorn) neste novo ambiente. Ao introduzir Worf, os roteiristas tiveram de criar mais um conflito para a Federação, desta vez com os Klingons, que usaram a paranóia dos metamorfos* para atacar o governo Cardassiano. Quando Worf assume a iniciativa de Sisko em impedir uma guerra, o chanceler Gowron destitui a posição de Worf no império, fazendo dele um exilado novamente. Foi o primeiro caso de um personagem de outra série ser incorporado desta forma.


*Essa paranóia sobre metamorfos se infiltrando nos altos escalões de governo também rendeu ótimas histórias na série.


O que vai se percebendo é como as histórias em DS9 nunca terminam dentro do mesmo episódio onde iniciou. A Nova Geração havia flertado com o arco da Guerra Civil Klingon brevemente, mas foi em DS9 que Jornada começou a abraçar uma narrativa mais serializada, com consequências sentidas à longo prazo. Isso se deve principalmente ao fato da estação permanecer no mesmo local. A Enterprise podia deixar os problemas para trás e partir em outra aventura. DS9 tem de lidar com problemas que não irão embora, sejam eles Bajorianos, Ferengi, Klingons, Cardassianos, Maquis ou uma possível invasão dos Dominion. A forma como a série ampliou e expandiu esse universo é impossível de quantificar. Toda a mitologia estabelecida nas série anteriores acabou ganhando novas camadas.


Claro que DS9 nem sempre foi 100% qualidade narrativa. Houve alguns episódios bem ruins. Um dos piores já concebidos foi Profit and Lace, na sexta temporada*. O episódio cuja intenção original era mostrar a evolução do movimento social feminino na sociedade Ferengi tornou-se uma aberração na qual Quark faz uma cirurgia de mudança de sexo para convencer um agente federal a restituir o líder comercial do planeta. É uma afronta a qualquer história de igualdade e abraça os piores clichês ao mostrar Quark vestido de mulher e tendo crises emocionais. É uma comédia mais fácil de fazer o público chorar.


*Ao todo, a sexta temporada teve problemas em incorporar a guerra em episódios que não lidavam com ela. Às vezes, parecia que não havia uma guerra acontecendo.


Um fator positivo no uso de tramas à longo prazo foi a possbilidade dos roteristas criarem romances entre os protagonistas, como Kira e Odo, ou Worf e Dax (esta também era cortejada por Quark e Bashir). Era raro ver romances consumados entre os personagens principais na Nova Geração, tampouco na série original.


Esta situação narrativa fez também com que a série gerasse uma quantidade assustadora de personagens secundários recorrentes. Dentre eles, tivemos Garak, Dukat, Damar, Ziyal, Michael Eddington, Ishka, Rom, Nog, Zek, Gowron, Martok, Leeta, Brunt, Weyoun, Keiko O'Brien, Almirante Ross, Vedek Bareil, Kai Winn, a Fundadora Feminina e muitos outros. Só dos citados acima, já temos quase vinte. Nenhuma outra série teve tantos personagens assim.


E os personagens principais também evoluiram de formas inusitadas. Tanto na série original quanto na Nova Geração, era pouquíssima a evolução dos personagens. Na série original era nula. Foi somente nos filmes que vimos novos lados de Kirk, Spock e McCoy. Na Nova Geração, ainda teve alguma tentativa de evoluir os personagens, mas muito tímida. Foi somente em DS9 que vimos essa evolução por completo. A forma como Bashir e O'Brien tornaram-se amigos. A forma como Sisko foi superando seu desconforto como figura religiosa Bajoriana e foi abraçando cada vez mais sua ligação com os Profetas. Ou a forma como Bashir deixou de ser um médico novato, mulherengo e arrogante e mostrou ser um dos oficiais mais competentes e dedicados a missão. DS9 foi um estudo de evolução de personagens que ainda tem de ser superado no universo de Jornada.


DS9 também criou o conceito da Seção 31, uma entidade secreta dentro da Federação que conduz operações ilegais que ninguém jamais revelaria a fim de perservar o paraíso que é a sociedade humana naquele século. Foi um conceito que dividiu fãs e foi reaproveitado em encarnações mais recentes de Jornada.


DS9 também abordava histórias de comédia com muito mais naturalidade que A Nova Geração. Quando Jornada nas Estrelas comemorou seu 30º aniversário em 1996, a equipe produziu um episódio no qual a tripulação voltava no tempo entrando literalmente num episódio da série original, Problemas aos Pingos, usando a mesma edição e tecnologia usada em Forrest Gump quando ele cumprimenta presidentes. Há uma cena no episódio na qual eles descobrem que há Klingons em volta deles, só que com a maquiagem usada na série original. Eles imediatamente questionam Worf quanto a esta gafe visual, e ele diz que Klingons não discutem esse assunto com humanos.


DS9 também fez outras homenagens a série original, inclusive inserindo seus personagens no famoso universo espelho paralelo estabelecido como um lugar onde todos os personagens que conhecemos são pessoas maléficas ou mal-intencionadas. Outro elemento trazido pra DS9 foram os três personagens Klingons da série original Kor, Koloth e Kang. Inclusive foram interpretados pelos mesmos atores, agraciando fãs com alguns excelentes episódios que unem esse legado da série original com o código de honra Klingon estabelecido na Nova Geração.


DS9 foi a primeira série de Jornada a mostrar um beijo entre dois personagens do mesmo sexo. No excelente episódio Rejoined, Dax e a cientista Lenara Khan (Susanna Thompson) tiveram de lidar com uma situação na qual eram proibidas de reatarem um relacionamento que tiveram em outra vida.


Nas últimas temporadas, os Dominion entraram no espaço da Federação e fizeram uma aliança com os Cardassianos, garantindo a Dukat que recuperariam os períodos gloriosos quando eram os donos de Bajor. Em desespero, a Federação reinstituiu uma aliança com os Klingons. Estava armada uma guerra que duraria as duas últimas temporadas do seriado e custaria trilhões de vidas. Era um novo passo para Star Trek. Um dos melhores episódios surgiu neste contexto, In the Pale Moonlight, no qual Sisko toma medidas extremas e moralmente questionáveis que nenhum oficial da Frota jamais tomaria a fim de convencer os Romulanos a auxiliarem eles na guerra.


Por sinal, a essa guerra envolvendo tantos lados adquiriu uma escala tão imensa que mudou completamente a forma como se produziam efeitos visuais até então. Duranta a Nova Geração seria impensável produzir um batalha envolvendo centenas de naves ao mesmo tempo. Com a melhora da tecnologia em computação gráfica na década de 1990, tornou-se finalmente possível montar uma sequência visual com essa ambição narrativa em DS9. Isso beneficiou posteriormente séries como Voyager e Enterprise, e também os filmes.


Existe também uma controvérsia até hoje de DS9 ser um clone do seriado Babylon 5. Ambas as séries estrearam em 1993. Ambas lidaram com uma estação espacial, e ambas lidaram com uma crescente mitologia conectada com tramas de longo prazo. Contudo, vejo isso como um caso de mera coincidência. Já aconteceu de filmes sobre o mesmo tema serem feitos na mesma época. E a visão que o roteirista J. Michael Straczynski tinha de B5 datava desde a década de 1980. O fato de DS9 ter sido criado com base em Rifleman mostra que há diferenças suficientes para por um fim a esse boato.


Na última temporada, Terry Farrell não retornou como Dax. Sua personagem foi morta na temporada anterior, e o alienígena simbionte foi transferido para um novo corpo, dando vida a Alferes Ezri Dax (Nicole de Boer). A nova Dax foi uma excelente presença na última temporada. Ter uma nova personagem para explorar, ainda uma numa situação psicológica tão incerta deu bastante combustível narrativo nessa reta final. Além de criar tensões com Worf e suas convicções religiosas sobre o destino dos mortos, a personagem deu a Bashir uma chance de relacionamento.


No fim das contas, DS9 durou sete temporadas, Um total de 176 episódios até seu final em maio de 1999. E quando acabou, foi uma conclusão definitiva para quase todos os personagens (menos Worf). A Nova Geração ainda tinha sobrevida com filmes no cinema. DS9 sempre havia sido tratada como um primo postiço dentro da própria franquia. Não haveria filmes no cinema para eles. Felizmente, a passagem do tempo foi boa para a série, que tem ganho cada vez mais o respeito dos fãs. De certa forma, DS9 evoluiu até melhor que A Nova Geração.


O episódio final representou o desfecho de mais de quinze tramas em andamento por toda a série, incluindo o fim definitivo da guerra, a volta de Odo para seu povo, o fim do exílio de Garak, e o fim da jornada de Sisko como o emissário dos profetas Bajorianos. A maioria das tramas teve um desfecho mais que satisfatório. Pode não ter sido uma série com o mesmo destaque que as demais teve pela mídia, mas DS9 sem dúvida foi a mais ambiciosa na época em que foi produzida e sem dúvida teve o aprecio de muitos fãs, ganhando mais alguns com o passar do tempo.


Fique com quatro inesquecíveis sequências da série logo abaixo:







Posted in 0 comentários Postado por Eduardo Jencarelli às 12:45  



Em setembro de 1991, Jornada nas Estrelas alcançaria seu aniversário de 25 anos. Literalmente, um quarto de século de existência. 25 anos de relevância mantida, sucesso e devoção por parte dos fãs, e demanda por mais aventuras espaciais com seus personagens favoritos.


Quando Jornada havia completado 20 anos, a situação era bem diferente. 1986 foi marcado pelo lançamento do quarto filme, o anúncio da Nova Geração, e até mesmo o lançamento oficial do episódio-piloto original de 1964, com Jeffrey Hunter no papel do capitão, no formato VHS.


Em 1991, já não tinha tanta pressão pra apaziguar a sede dos fãs. A Nova Geração se encaminhava para sua quinta temporada, enquanto que Kirk e companhia já tinham passado por cinco filmes no cinema. Já Rick Berman e Michael Piller discutiam com a Paramount planos para uma nova série televisiva que se passaria na era de Picard. Contudo, a divisão cinematográfica da Paramount ainda via a necessidade de se produzir mais um filme no cinema.


Harve Bennett, que tinha mais um ano de contrato restante, já vinha circulando idéias para uma nova história. Após o quinto filme, ele submeteu à Paramount uma idéia entitulada Star Trek: Starfleet Academy.


Como o próprio nome deixa claro, a história se passaria na academia de treinamento da frota estelar, onde jovens alunos aprendem a se tornarem oficiais capacitados para missões como a da Enterprise. A trama contaria as origens de Kirk, Spock, McCoy, Scotty, Chekov, Uhura e Sulu quando eram adolescentes. Para Bennett, era uma jogada perfeita. Contratando jovens atores, a Paramount economizaria dinheiro nos cachês crescentes do elenco veterano. Eles apareceriam em breves cenas no início e fim do filme, deixando o peso da história nas mãos do novo elenco. Isso permitiria examinar os personagens de formas inusitadas, vendo como Kirk teve de se esforçar para provar que era capaz, como Spock contrariou o pai ao entrar para a frota, ou como McCoy passou a juventude cuidando do pai enfermo. Bennett e o roteirista David Loughery começaram a elaborar uma trama até que a Paramount ligou com más notícias. O diretor do estúdio insistia em uma história mais convencional com o elenco original, até por se tratar do aniversário de 25 anos.


Bennett não aceitou a decisão, e ficaram num impasse. Isso pôs um fim ao envolvimento dele com Jornada. Um trabalho que durou uma década. Bennett, magoado, arquivou a idéia*, recorreu à bebida e levou um bom tempo para se recuperar e tomar outros projetos.


*Parte da idéia de mostrar a vida deles como jovens cadetes foi reutilizada por J.J. Abrams e sua equipe no reboot de Star Trek, lançado em 2009.


Enquanto isso, a Paramount tinha de lançar o filme antes de dezembro de 1991, sem roteirista ou diretor contratado. A solução para eles foi colocar Leonard Nimoy na posição de produtor-executivo, responsável por desenvolver a história. Tendo provado seu valor criativo na direção de dois filmes, foi uma escolha natural. No quesito produção, Nimoy teve a ajuda do produtor Ralph Winter, que já havia trabalhado como produtor associado nos filmes anteriores. De cara, com prazo apertado, Nimoy recorreu à Nicholas Meyer. Meyer entrou no projeto como roteirista e diretor, supervisionado por Nimoy. Ele também trouxe à bordo o produtor Steven-Charles Jaffe.


Como Meyer estava ocupado filmando Companhia de Assassinos, com Gene Hackman, ele recorreu a seu amigo roteirista e dramaturgo Denny Martin Flinn para ajudar no roteiro de Jornada VI. Flinn acabara de ser diagnosticado com câncer*, e Meyer deu a oportunidade para ele focar em algo produtivo.


*Diagnosticado em 1990, Flinn sobreviveu mais 17 anos, morrendo em 2007. Ele inclusive contribuiu para várias entrevistas do material extra produzido para o DVD de Jornada VI, lançado mais de 10 anos após o filme.


Nimoy e Meyer decidiram que o filme seria uma analogia à queda recente do Muro de Berlim. Com a explosão de Praxis, uma lua de mineração Klingon, a atmosfera do planeta Kronos é contaminada, deixando o Império Klingon em estado de alerta, cientes de que esgotarão o oxigênio em 50 anos. Isso faz com que Spock, Sarek e o alto conselho da federação iniciem negociações de paz entre as duas potências, contrariando Kirk cujo ódio aos Klingons era insolúvel. Pôr um obstáculo entre Kirk e Spock em sua última aventura era a forma perfeita de elevar o drama nas vésperas do desfecho de suas aventuras.


E a medida que o filme entrou em produção, a União Soviética entrou em colapso, dando um fim definitivo à Guerra Fria. Não se podia imaginar a forma como os eventos do mundo real fizeram do filme tão relevante. Os Klingons sempre foram parcialmente uma analogia aos russos, levando em conta como a série original estreara no auge da Guerra Fria.


A trama, como devem lembrar, coloca a Enterprise numa missão de escoltar o chanceler Gorkon (David Warner) e sua trupe pelo espaço da Federação para uma conferência de paz, à contragosto de Kirk que segue suas ordens. No meio da viagem, um torpedo é disparado sem consentimento de Kirk, danificando os Klingons. Dois assassinos misteriosos teletransportam à bordo e assassinam o chanceler à sangue-frio. Cabe a Kirk e McCoy se renderem aos Klingons, a fim de preservar a paz intergalática, enquanto Spock tenta desvendar o mistério por trás do assassinato. Eles descobrem que há elementos tanto da Federação quanto entre os Klingons que trabalharam juntos e arranjaram toda esta situação para desmantelar qualquer chance de paz, pois eles são incapazes de existirem num mundo sem guerra ou conflito. Cabe então a Spock resgatar Kirk e McCoy e impedir outra tentativa de assassinato, esta contra o Presidente da Federação.


A cena da corte judicial* onde Kirk e McCoy são processados pelos Klingons, por sinal, é outra das clássicas. Plummer devora a cena como Chang sendo o promotor. Ele inclusive se apropria de uma fala, usada na vida real pelo diplomata Adlai Stevenson na crise dos Mísseis Cubanos, em 1962, pedindo para que o representante Soviético da ONU não espere a fala ser traduzida e que responda de imediato. O paralelismo deste filme com eventos históricos vai além de qualquer outra produção de Jornada.


*Michael Dorn, que já interpretava Worf na Nova Geração, fez uma participação no filme como um antecessor de seu personagem que foi o advogado de Kirk e McCoy no julgamento. Quem também participa do filme como um personagem fuzileiro da Frota Estelar responsável pela tentativa de assassinato do Presidente é René Auberjonois, que em breve interpretaria o Comissário Odo na série Deep Space Nine.


Meyer teria 12 meses para finalizar o filme. Tempo curto demais. E o orçamento não era o suficiente para realizar o filme. A Paramount disse que não subiria o orçamento. 25 milhões de dólares teriam de ser suficientes, pois o estúdio havia sofrido duras perdas financeiras no ano anterior. Meyer queria 30. A tentativa de conter gastos havia inclusive afetado a quarta temporada da Nova Geração. O estúdio estava sendo comprado por outra empresa. Era uma situação complicada, e nesse impasse, a Paramount deu um fim à produção do filme. Estava tudo acabado.


Contudo, Stanley Jaffe interviu e resgatou o filme. Sendo o pai do produtor Steven-Charles Jaffe, o veterano forneceu os 5 milhões extras que Meyer havia pedido. O filme estava de volta.


Contudo, mesmo com 30 milhões, tiveram de reaproveitar os sets já usados na Nova Geração para garantir que tudo permanecesse dentro do orçamento. A única parte em que se vê dinheiro investido é quando Kirk, McCoy e a alienígena Martia escapam pelos campos gelados de Rura Penthe, cenas que foram filmadas alternadamente com os atores num parque de Los Angeles e algumas tomadas externas feitas no próprio Alasca.


Após a ausência da Industrial Light & Magic no longa anterior, eles conseguiram os serviços deles para filmar a cena em que a lua Praxis explode, gerando uma imensa onda de choque espacial que atinge a USS Excelsior. A cena foi tão bem executada que rendeu um oscar de melhores efeitos visuais para o filme. Algumas das cenas de batalha envolvendo a Enterprise e a Ave de Rapina Klingon invisível não tiveram um resultado tão satisfatório. Com pouquíssimo tempo de pós-produção, tiveram de apressar alguns desses efeitos.


Meyer, famoso por fumar charutos bastante cheirosos, teve mais liberdade criativa neste filme e incluiu detalhes que jamais haviam sido vistos na Enterprise como uma cozinha, e até mesmo sinais de não fume, deixando a entender que a humanidade não teria largado o hábito no Século XXIII (contrariando a utopia defendida por Roddenberry). O filme também continha passagens de Shakespeare. Críticos e fãs divididos argumentam que Meyer exagerou nesse quesito, a ponto do General Chang (vivido por Christopher Plummer) virar uma máquina que recita Shakespeare ao invés de ter uma personalidade mais Klingon.


Leva-se em conta que a mitologia Klingon sendo desenvolvida na Nova Geração por roteiristas como Ronald D. Moore havia tomado um rumo bem diferente, mais semelhante ao conceito de samurais japoneses e questões de honra. Contudo, Meyer argumenta que o fascínio por Shakespeare é o que define Chang e faz dele um adversário único para Kirk.


Uma questão de lógica que separa este filme dos demais é a do sangue rosa Klingon. Já estava mais do que estabelecido na franquia que o sangue deles era tão vermelho quanto os dos humanos (vulcanos tem sangue verde). E sabemos o quanto esse detalhe é crucial nas investigações de Spock e Chekov ao descobrir o paradeiro dos assassinos. De acordo com Meyer, a coloração rosa foi resultado de duas questões: uma foi porque o efeito bolha do sangue seria este em gravidade-zero, mas o motivo principal foi para evitar que o filme ganhasse uma censura pesada. Levando em conta que estamos assistindo a uma sequência de assassinato em massa, com sangue derramado a cada disparo, faz sentido. É um momento impactante.


Meyer conseguiu também dar o nome final do filme: Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida. Este era o título que havia concebido para o segundo filme. Na época, a Paramount havia rejeitado porque achava que este nada tinha a ver com a trama do filme envolvendo Khan. A sugestão da Paramount havia sido A Vingança de Khan, que Meyer protestou e ainda afirmou que este seria o título usado por George Lucas no terceiro Star Wars*, antes de definirem o filme como A Ira de Khan.


*Ironicamente, A Vingança de Jedi foi o título do terceiro filme durante algum tempo, a sugestão do produtor Howard Kazanjian. Contudo, Lucas voltou atrás e usou O Retorno de Jedi no seu lugar, alegando que um Jedi jamais usaria vingança como instrumento de ação.


Outro problema enfrentado nas filmagens foram os atores. Eles sentiram que seus personagens estavam assumindo posturas racistas demais à serviço da trama com os Klingons. Nichelle Nichols inclusive recusou-se a dizer uma de suas falas por causa disso. A cena da janta entre a tripulação e os oficiais Klingons mostra um pouco das intenções de Meyer, com a hostilidade mal contida entre ambos os lados.


E o elenco de apoio conseguiu mais cenas de destaque para eles. Walter Koenig, James Doohan e também Nichols tiveram bons momentos. Há fãs que questionam a cena onde eles usam dicionários para traduzir Klingon e enganar um posto de escuta. Nunca que uma oficial de comunicações como Uhura não saberia ao menos falar alguma coisa em Klingon. Tanto que o reboot de J.J. Abrams fez com que a personagem fosse fluente no dialeto.


A trilha sonora foi composta pelo então novato Cliff Eidelman. Meyer queria James Horner. Contudo, Horner havia tornado-se caro demais para o orçamento limitado da produção. Ironicamente, Horner foi contratado para o segundo filme porque não conseguiram bancar Jerry Goldsmith. De qualquer forma, a trilha de Eidelman seguiu um caminho bem distinto, misturando os temas clássicos de Jornada com novos temas sombrios e impactantes.


Vale falar também de Rura Penthe, o planeta-prisão para onde Kirk e McCoy são enviados e conhecem a alienígena metamorfa Martia (vivida pela atriz Iman). A tentativa de fuga protagonizada por ela é na verdade uma forma de fazer com que os Klingons os matem, o que perdoaria sua sentença. A cena em que ela se transforma em Kirk para lutar contra ele é a oportunidade de William Shatner para expressar seu estilo teatral ao extremo, falando consigo mesmo.


No roteiro original, a idéia era trazer de volta a Tenente Saavik, vivida por Kirstie Alley no segundo filme, e por Robin Curtis nos dois seguintes. Saavik seria revelada como a traidora por trás dos torpedos e por esconder os assassinos de Gorkon. Nada mais natural, levando em conta como testemunhou de perto a morte de David, filho de Kirk, pelos Klingons. Até impactante se levar em conta que a selvageria dos atos sobrepôs a sua lógica vulcana.


Contudo (e com aprovação da Paramount), este detalhe do roteiro foi conclusivamente vetado por Gene Roddenberry.


Para Roddenberry, era inconcebível que uma personagem de tamanha integridade fosse capaz de trair os próprios companheiros em nome de uma iniciativa tão repreensível. Isso gerou uma reunião entre Roddenberry e Meyer marcada por advogados e um clima tenso no qual Meyer mostrou seu lado menos cordial, levantando a voz e abandonando o encontro com Roddenberry, que já se encontrava extremamente debilitado fisicamente, com muitos anos de abusos de substâncias ilícitas dentre outros vícios. E era fato que Roddenberry era veemente contra o estilo militar náutico que Meyer havia impresso na franquia.


A mudança fez com que Meyer e Flinn criassem uma nova personagem, a Tenente Valeris (vivida pela Kim Cattrall, a mesma de Sex and the City). Mesmo tentando criar uma história entre ela e Spock, mostrando que era aluna dele, ficou muito na cara que só podia ser ela que sabotara os esforços de paz ao esconder a origem dos torpedos e o paradeiro dos assassinos.


Mas por sinal a cena em que Spock usa o toque vulcano para extrair informações de Valeris consegue ser uma das mais perturbadoras já filmadas nesses 25 anos. Beirando um tipo de estupro mental.


George Takei não teve tanto espaço neste filme. Isto ocorreu porque seu personagem havia sido promovido à capitão da USS Excelsior* (sim, a mesma nave que Scotty havia sabotado no terceiro filme). Takei desejava esta promoção desde o segundo filme. Sabe-se que ele sempre teve uma certa desavença com Shatner (assim como os demais coadjuvantes), e sempre quis um reconhecimento por sua contribuição como Sulu. Esta foi sua oportunidade. Outra veterana da série original que também aparecera na Excelsior foi a atriz Grace Lee Whitney** como a oficial Rand, que havia feito algumas participações nos longas anteriores.


*Quem divide uma cena com Takei brevemente no filme é um jovem Christian Slater. Filho da diretora de elenco, Mary Jo Slater, ele conseguiu essa ponta no filme antes de se tornar famoso. Hoje é ele conhecido por seu papel na série Mr. Robot.


**Na série original, Whitney havia sido incluída no elenco como uma das principais, a oficial do capitão, e tinha uma tensão amorosa com ele. Contudo, os problemas de bebida e remédios da atriz a impediram de seguir adiante na série original e foi dispensada no meio da primeira temporada. Ela levou anos para se recuperar e se tornou porta-voz para viciados em vários eventos, incluindo convenções de Star Trek.


Já Nimoy teve disputas com a Paramount, que tentou incluir dois roteiristas, Lawrence Konner e Mark Rosenthal, que não contribuiram em nada na trama do filme, mas receberam crédito por tal. Nimoy tentou recorrer ao sindicato dos roteiristas, mas havia uma questão política por parte da Paramount que impediu isso e o crédito foi mantido.


Quando o filme foi completo, uma cópia foi exibida a Roddenberry. Ele deu sinal de aprovação. Em seguida se reuniu com seu advogado, Leonard Maizlish, e iniciou medidas judiciais para cortarem 20 minutos de cenas excessivamente militares.


Antes que o processo entrasse em trâmite no sistema judicial, Gene Roddenberry morreu de insuficiência cardíaca, aos 70 anos.


Ao mesmo tempo que todos celebravam os 25 anos de Jornada nas Estrelas, tanto fãs quanto produtores, roteiristas, atores, e todos aqueles responsáveis por criar este universo estavam em luto pela morte de Roddenberry. Por mais que tenha tido seus problemas, não há como negar o impacto que ele teve ao criar o conceito original. No fim, o filme foi decidado à ele.


Tendo criado a obra original, por questões autorais, todas as produçõs posteriores de Star Trek são devidamente atribuídas a Roddenberry.


O filme foi lançado em dezembro de 1991, e foi um sucesso entre os fãs. O final do filme deixa claro que este era definitivamente o fim. Kirk e sua tripulação seguem com sua nave em direção a sua última jornada para casa, para se aposentarem, cientes que as jornadas continuarão com novas tripulações.


Se levar em conta que o segundo filme, A Ira de Khan, lidava com Kirk tendo uma crise de meia-idade, o sexto filme mostra que a idade chegou para todos*. Kirk grisalho. Scotty e McCoy visivelmente velhos. Apenas Spock permanece mais ativo devido ao envelhecimento vulcano ser mais lento.


*Por falta de conhecimento, Flinn havia escrito um final alternativo no qual Kirk entrega à Picard as chaves da Enterprise, sem saber que A Nova Geração se passava 80 anos após os eventos do filme, com uma nova nave.


Jornada havia chegado ao fim de suas aventuras originais. Foram três temporadas com a série original, duas temporadas com a série animada e seis filmes no cinema. Essa era a reta final, mais do que merecida para Kirk e cia.


Mas ainda tinha muitas fronteiras a serem cruzadas por uma nova geração. E a Paramount, junto com Rick Berman, já preparava o futuro da franquia.


Fique duas cenas inesquecíveis: a cena em que Kirk assume responsabilidade pelas ações da tripulação no julgamento, e também a cena final do filme, logo abaixo:






Posted in 0 comentários Postado por Eduardo Jencarelli às 11:31