Sobre o que é Indiana Jones e a Última Cruzada?


O clássico terceiro filme do arqueólogo interpretado por Harrison Ford e criado por George Lucas e Steven Spielberg foi lançado há 31 anos. Considero ele o melhor filme dentre os quatro lançados, melhor até mesmo que o clássico original, Os Caçadores da Arca Perdida.


E até hoje me pego debatendo e ponderando o significado do filme. Qual o tema que impulsiona sua trama? Muitos citarão o plot básico. Que o filme é sobre a busca que Indy faz atrás do cálice sagrado de Jesus, o Santo Graal.


Mas eu diria que o filme é na verdade a resposta que George Lucas resolveu dar ao último capítulo da trilogia de Star Wars: O Retorno de Jedi.


Para quem não lembra, a trama de Star Wars lida com a jornada de Luke Skywalker, que luta contra o Império galático e descobre que o vilão Darth Vader é seu pai durante o segundo filme, O Império Contra-Ataca. Já no Retorno de Jedi, ele ao invés de lutar contra o pai, ele tenta salvá-lo das garras do Imperador Palpatine e do lado negro da força. Ele consegue, só que seu pai sacrifica a própria vida ao salvar o filho de um ataque mortal de Palpatine.


Em outras palavras, Vader jamais tem a chance de se redimir por seus pecados e voltar a ser o pai que Luke jamais teve a chance de conhecer e conviver. Luke tomou a decisão de poupar seu pai de uma morte em combate em amor a ele, e para não se entregar a raiva e ao ódio que guiam o lado negro da força. Foi uma decisão amorosa, mas era tarde demais para salvar seu pai e ter uma segunda chance.


Indiana Jones e a Última Cruzada foi a forma que Lucas encontrou para dar a seu protagonista essa segunda chance com seu pai. Indy nunca foi próximo de seu único parente, Henry Jones Sr. (Sean Connery). Mesmo após o falecimento da mãe de Indy, Henry Sr. passou a vida dedicado ao estudo e pesquisa do Graal. Indy sempre resguardou ressentimento por essa sensação de abandono e acabou se tornando um lobo solitário, professor ocasional e arqueólogo no tempo livre.


Uma das cenas mais marcantes do filme e da trilogia é quando Henry vê o tanque nazista caindo do penhasco e percebendo que haveria perdido a chance de resolver as pendências com o filho. Ao ver Indy vivo e ileso, sua reação traz mais catarse emocional que qualquer diálogo. É o momento que redefine a relação de pai e filho pra algo muito mais próximo e amoroso. Spielberg filma esse momento com honestidade e franqueza, especialmente com as reações dos colegas Marcus e Sallah que conviveram com Indy e como esse afastamento do pai o afetou ao longo dos anos.


Vale lembrar que Spielberg também teve uma relação complicada com o pai, o culpando pela separação de sua mãe décadas antes. Ele levou todo esse tempo pra conseguir fechar o abismo emocional que os separava. Mais um aspecto da vida real que informa a dinâmica desses personagens.


Com essa reunião emocional amarrada, o filme então torce de forma violenta as emoções do público ao mostrar Henry sendo baleado pelo vilão Donovan, forçando Jones a ir atrás do Graal e depositar sua fé na esperança de cura do pai. Uma aula de roteiro, expectativa e manipulação emocional no melhor sentido.


Por isso que a vitória de Indy nesse filme é tão merecida, muito mais que no primeiro filme. Os nazistas sendo consumidos pela magia da arca não tem o mesmo impacto que Indy arriscando a própria vida pra ter essa segunda chance com o único pai que tem. E é nessa hora que não dá para evitar de imaginar uma versão de Star Wars na qual Vader sobrevivesse e tivesse uma nova chance com o filho. A Vingança dos Sith deixa claro que Anakin já foi uma boa pessoa, capaz de amar e proteger.


Momentos como esses mostram o impacto que mesmo os filmes blockbuster comerciais podem ter quando os cineastas por trás constroem essas histórias com paixão e esforço.






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Aproveitando para abordar uma questão que deixei de lado no texto anterior.


Um dos problemas que eu havia citado na questão da relação do público com o anti-herói era o fato de muitos espectadores torcerem pelos protagonistas apesar de suas ações moralmente desprezíveis. Citei inclusive o fato de tantos abraçarem a filosofia de personagens como o Capitão Nascimento na vida real.


E existem também aqueles casos de pessoas incapazes de separarem a ficção da realidade, a ponto de assediarem certos atores pela forma como os papéis ficcionais deles os afetaram. Um exemplo disso foi a forma como fãs atacaram a atriz Anna Gunn por seu papel de Skyler White em Breaking Bad, a demonizando por ser um obstáculo moral no caminho de Walter White. Como se ela realmente fosse a vilã da história, ignorando completamente as mortes causadas pelo professor.


Mas existe um gênero na ficção no qual é possível se investir e até torcer para protagonistas desse cunho sem qualquer ressalva moral: comédia. Especificamente sátira. Quando a narrativa flerta com o ridículo, fica muito mais fácil abordar esses personagens sem perder a objetividade. Mas vou citar como exemplo uma série dramática nesse caso, cujo conteúdo se encaixa bem.


Succession é uma série recente da HBO que aborda as vidas de membros de uma família multimilionária e dona de um conglomerado midiático norte-americano (supostamente baseada na dinastia de Rupert Murdoch). Temos o patriarca envelhecido com saúde debilitada que mantém controle de suas empresas com mão de ferro, e do outro lado temos seus filhos que lutam pelo controle da mesma e tentam sair da sombra do pai, mostrando do que são capazes. É uma trama clássica hollywoodiana, mas no caso dessa série, estamos lidando com seres humanos moralmente desprezíveis em todos os aspectos.


Um aspecto interessante dessa produção é que mesmo sendo tecnicamente da categoria drama, ela acabou por empregar vários roteiristas mais conhecidos de comédia, incluindo vários veteranos da série Veep. Para quem não lembra, Veep (2012-2019) foi uma sátira da política norte-americana, focada na vice-presidente Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus) e sua turma de colaboradores e agentes políticos. Pessoas igualmente desprezíveis capazes de qualquer manobra para se perpetuar no poder. E é uma série hilária, escatológica e surpreendentemente verídica. Uma das melhores e mais ousadas comédias da década.


Voltando a Succession, percebemos que não são personagens com os quais a maioria do público teria capacidade de se conectar. O patamar financeiro deles os dá uma liberdade de alcance quase infinito, a tal ponto de não terem qualquer compromisso com moral ou ética. Vemos isso logo no primeiro episódio quando resolvem fazer uma aposta de o filho do jardineiro é capaz de acertar uma bola, prometendo uma recompensa de US$ 1 milhão caso consiga. Que espectador teria simpatia com personagens que agem dessa forma?


Essa brincadeira intencional com as emoções e expectativas das demais classes sociais deixa claro em que nível moral eles se encontram. A única forma de conectarmos com esses personagens é investindo no exagero e no ridículo. Cenas como o filho mais novo se masturbando na janela do escritório da empresa - um dos pontos geográficos mais altos de Nova York - ou o pai fazendo o presidente dos EUA esperar na linha telefônica de propósito são formas de extravasar essa insanidade e ainda assim manter essa objetividade. Quando a série expõe o ridículo dessa forma, ela se sobressai, mesmo sendo um drama que nos pede para investir na jornada do filho que é exonerado pelo pai. E mesmo assim, esse mesmo filho não deixa de ter seu lado sociopata.


No fim das contas, vemos entretenimento para fugir da realidade. Mas é pertinente saber separar a ficção da realidade e manter objetividade nessa relação.


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Se há um aspecto narrativo que diferencia o cinema e a TV de hoje em dia comparado às produções de 30 ou 40 anos atrás é a presença cada vez maior do anti-herói.


E quem é o anti-herói? Já se foi a época em que o gosto público e a cultura pop eram definidos por heróis tradicionais. A figura sem qualquer falha moral ou defeito (fora talvez o hábito de fumo excessivo nos filmes de antigamente).


Inclusive, ainda dá para se dizer que a figura do herói tradicional persiste hoje. Mas é uma figura atualizada, mais ciente dos seus defeitos e falhas, mas que ainda assim luta pelos seus ideais e por um mundo (ou universo) melhor. Não é a toa que o cinema blockbuster hollywoodiano atual se tornou uma indústria direcionada pelos super-heróis da Marvel e a volta de Star Wars.


Quando pensamos em anti-herói, a tendência é olhar para a nova era de ouro da TV que começou há cerca de 20 anos. Protagonistas como Tony Soprano (A Família Soprano), Don Draper (Mad Men) e Walter White (Breaking Bad) são os primeiros exemplos que nos vem a cabeça. São personagens de moral e ética completamente divorciada do herói tradicional. O primeiro é um mafioso capaz de matar pessoas com as próprias mãos, o segundo é um homem que usurpou a identidade do companheiro morto na guerra, e o terceiro é um professor de química que resolve produzir metanfetamina para ganhar dinheiro e poder, destruindo inúmeras vidas, incluindo sua própria família.


Não há qualquer dúvida. São pessoas que jamais teríamos interesse em conhecer de perto na vida real. Mas aí entra um dilema: por que torcemos para esses personagens?


Não há uma resposta simples a essa pergunta. Mas dá para ter uma noção de como esse processo é criado. De início, temos de analisar os roteiros dessas obras. Digamos que a estrutura narrativa dessas histórias ainda seguem o modelo tradicional de 3 atos (ou 4 atos, na TV). Cada detalhe desses roteiros é construído e estruturado de forma minuciosa a gerar emoções por parte do espectador. E por fim, quando ele ou ela sequer percebe, já está investido na jornada do protagonista e torcendo abertamente. Isso ocorre porque o objetivo desses roteiros é explorar o emocional em detrimento da lógica.


Walter White é estabelecido no primeiro episódio como um professor mal pago acometido com um câncer incurável. Isso cria empatia por parte do público. É uma pessoa como qualquer outra, vivendo o mesmo cotidiano de sempre, e que luta a cada dia, sem qualquer dignidade ou auxílio exterior. Do ponto de vista dele, ele se sente sempre emasculado por todos, incluindo a própria família - que o ama. Assim, o roteiro já consegue fisgar o espectador e colocá-lo na posição de Walter White. Agora que fez isso, dá o primeiro twist e flerta com a possibilidade de cometer uma pequena transgressão que a princípio não fará mal a ninguém. Cozinhar a primeira dose da droga. E de pouco em pouco, Walter vai entrando num caminho sem volta, a trama vai se complicando e seus piores instintos vão dominando sua personalidade pacata anterior. Quando menos percebemos, já estamos vendo um monstro no lugar daquele professor.


Mas até que ponto o público é capaz de torcer por essa figura sem perceber que está literalmente legitimando as atrocidades e crimes do personagem?


Cada espectador reage da sua forma. Alguns percebem de cara. Outros sequer notam. E cada um reage de acordo com seu senso de moral e ética. Mas também acredito que a maioria compreenda que estamos lidando com obras de ficção. Óbvio que uma discussão sobre a moralidade de personagens fictícios não necessariamente diz algo sobre o caráter de cada espectador.


O que me preocupa as vezes, é quando alguém adota o caráter de certo personagem de forma muito literal, sem compreender a intenção do autor da obra. Afinal, vivemos em um país onde o nível de leitura é muito baixo dentre a população. A tendência é criar ídolos e figuras de exemplo nas mídias audiovisuais. Durante muito tempo a televisão teve papel hegemônico nessa formação de caráter do público, principalmente nas classes mais baixas.


Tomando como exemplo, os dois filmes Tropa de Elite, lançados em 2007 e 2010. Os filmes claramente mostram que um personagem como o Capitão Nascimento não é uma pessoa comum, e que sua cruzada contra o crime organizado e a corrupção do sistema tem consequências negativas tanto para sua saúde quanto sua vida pessoal. Mas nada disso impediu que diversos espectadores tomassem as dores do personagem como uma forma de legitimar seus respectivos discursos de ódio, validando ainda mais o extremismo que reina no país hoje.


Esse é o pior lado possível nessa relação do público com a figura do anti-herói. Aqueles que se deixam levar pelo discurso do personagem sem sequer perceber a intenção original do autor. Aqueles que deixam de perceber que alguém como Nascimento se trata de um anti-herói e passa a usá-lo como exemplo de herói.


Claro que na era atual do cinema e da TV, a tendência é humanizar esses personagens. Não há dúvida de que figuras como Tony Soprano e Walter White são dominados por medos, inseguranças, e mesmo com suas falhas ainda tem a capacidade de empatia e amor, ao menos por suas respectivas famílias. Não são sociopatas absolutos. Ainda há traços de humanidade neles. Mas é importante saber analisar e separar as diferentes características e aspectos que definem esses protagonistas, estando ciente de que são narrativas sobre o colapso moral deles.


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Mais um Tropeço da Disney

(27 de abr. de 2020)




A Disney não é uma megacorporação à toa. O histórico de animação dela fala por si só. O esforço em construir mega-parques no mundo todo mostra seu compromisso com o entretenimento e a diversão. Ao mesmo tempo, é uma companhia que tem certas práticas merecedoras de crítica.


Claro que alguns argumentarão que é um mimimi desnecessário fazer um texto apontando os erros da companhia. Mas o fato dela ter todo esse alcance faz dela uma entidade muito visível, e que obviamente exerce muita influência sobre seus consumidores. E não é passível dessas críticas só porque agrada a muitos com suas obras e produtos. Companhia nenhuma nesse mundo é imune a questionamentos (e muitas, eu diria, são repreensíveis em certos aspectos).


E se pararmos para pensar a fundo, conseguimos perceber que companhia nenhuma atinge um sucesso e um capital desse nível sem praticar certas ações moralmente questionáveis. Até porque essas mesmas ações não são necessariamente condenáveis em um ponto de vista econômico.


Afinal, qual foi a última que a Disney fez para merecer esse texto? Digamos que tem a ver com a reedição de filmes em seu catálogo.


Nesse último mês, a Disney relançou Splash - Uma Sereia em Minha Vida, comédia romântica e filme clássico de 1984 dirigido por Ron Howard, com Tom Hanks, Daryl Hannah e John Candy. O filme foi relançado no app de streaming Disney +.


E essa versão foi reeditada para cortar uma cena na qual aparece (de forma muito breve) o traseiro da sereia vivida por Hannah.


Essa é uma decisão problemática em inúmeros aspectos. Em primeiro lugar, abre um precedente para um estúdio reeditar suas produções sem qualquer input dos autores da obra, e sem sequer consultar o público que abraçou o filme há tantos anos.


Vale lembrar que nada disso é novidade para o estúdio do camundongo. Além das já conhecidas práticas de monopólio de mercado, a Disney tem um péssimo histórico quando se trata de seu acervo de obras. Durante décadas, eles seguram filmes dentro do famoso "cofre", preferindo não relançá-los. O propósito disso? Fazê-lo tão raro a ponto de levantar seu valor e relançá-lo a preços altíssimos. Isso por si só já vai contra os princípios de preservação histórica do cinema. Estúdio nenhum merece ter esse poder.


Se a ideia por trás da remoção da nudez de Hannah é fazer com que o filme não sofra represálias por grupos religiosos fundamentalistas - que enlouquecem com qualquer insinuação minimamente sexual - vale lembrar que o filme quando foi lançado nos anos 1980, ele foi vendido como uma comédia romântica adulta. É para isso que existe um sistema de classificação indicativa. A responsabilidade de ver o filme na íntegra cabe ao espectador responsável.


Mas se esse continua a ser um problema, existe uma segunda solução: lançar as duas versões do filme na plataforma: uma com a nudez, e uma sem. Problema resolvido.


Vale mencionar também o duplo padrão em vigência nesse mesmo estúdio. Lembrando: a Disney é dona da Marvel, que lançou um certo filme chamado Thor Ragnarok há menos de 3 anos, e que contém uma cena com o Hulk nu. Por que um monstrengo verde e masculino pode andar nu e não sofrer qualquer censura? Aí entra o duplo padrão e o machismo em Hollywood a respeito da nudez masculina vs. nudez feminina.


E alguém consultou Hannah na véspera de relançar seu filme? Provavelmente não. Dá para se imaginar que ao menos a dona do corpo exibido nas telonas teria mais direito a opinar quanto a isso. Mas o departamento de marketing é sempre a voz principal nessas questões.


E com a capacidade que existe hoje em gerar soluções via computação gráfica (vide a pós-produção que teve na adaptação de Cats após o lançamento do filme), o que impede estúdios de reescreverem sua história, mexendo em seu acervo? Isso cria um precedente perigoso, e deixa o público no risco de perder esse aspecto histórico do cinema.


Lembrando que isso não invalida a ideia de edições especiais de filmes. Nada mais justo que um diretor queira reeditar um filme e lançar uma versão especial, desde que se tenha ambas as versões disponíveis. E nesse caso, o autor tem o direito de mexer em sua obra caso queira. Mas um estúdio fazer isso de forma unilateral - e por uma questão tão mesquinha quando as nádegas que aparecem por meio segundo de filme - mostra o risco que é um estúdio ter esse poder, e a dificuldade que é para historiadores e curadores manterem vivos a memória e a história da sétima arte.



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Duna

(14 de abr. de 2020)




Duna teve suas primeiras imagens divulgadas na internet.


O filme é uma nova adaptação do livro clássico de Frank Herbert. Quem já leu sabe o que esperar. Um clássico de ficção científica que serviu de inspiração para várias outras obras, incluindo Star Wars.


Em resumo, e para quem não conhece, Duna conta a história de Paul Atreides, um príncipe de uma dinastia real que luta contra os Harkonnens, outra dinastia, pelo controle do planeta Arrakis. Essa história se passa no ano 10191 em outra parte da galáxia. Arrakis, também conhecido como Duna, é um deserto cobiçado por ser a única fonte de Tempero, combustível essencial para as facções que disputam o poder.


Ao mesmo tempo (e sem entrar em SPOILERS), Paul tem uma jornada de herói (no sentido clássico da mitologia estudada por Campbell) e deixa de ser um mero príncipe para se tornar uma figura messiânica para o oprimido povo Fremen, que habita Arrakis. Um dos melhores retratos dessa jornada e de como uma sociedade se reúne em torno de um messias.


E claro, em matéria de visuais, essa história tem de sobra. Algumas das imagens mais icônicas incluem as enormes minhocas de areia que aterrorizam o deserto, e os olhos azuis do povo Fremen, resultado da presença constante do Tempero na corrente sanguínea. Qualquer ilustrador de ficção científica tem Duna como referência.


E não é a primeira vez que Duna é adaptada para o cinema. Uma das primeiras tentativas foi feita na década de 1970, lideradas pelo excêntrico cineasta Alejandro Jodorowsky. A tentativa dele não foi adiante por questões orçamentárias, mas tornou-se lenda dentre os fãs de Duna, e acabou resultando num ótimo documentário, que pondera como seria o cinema se ele tivesse conseguido completar sua obra.


A adaptação foi adiante sem ele, e o filme que o público conhece foi lançado em 1984, com direção de nada menos que David Lynch (Veludo Azul). Kyle Maclachlan, que ficaria eternizado em alguns anos como o agente Cooper em Twin Peaks, foi quem encarnou Paul Atreides no filme, que também inclui um jovem Patrick Stewart (Star Trek) como Gurney Halleck, e até o próprio Sting como Feyd-Rautha Harkonnen. O filme acabou dividindo a crítica e o público. Não foi sucesso de bilheteria, não é visto como uma boa adaptação da obra de Herbert, e também é visto como um dos filmes mais fracos de Lynch. Posteriormente, o próprio Lynch desonrou o filme, citando o fato dos produtores terem editado o corte final do filme sem sua participação.


Mesmo assim, o filme não deixa de ter imagens impactantes, além da excelente trilha sonora.


Além de duas minisséries pra TV feitas entre 2000 e 2010, a obra de Herbert também foi adaptada para alguns jogos de videogame e computador. E mesmo após o falecimento de Herbert, seu filho Brian e o autor Kevin J. Anderson continuaram a expandir essa saga e esse universo com novos romances, novos conflitos e novas dinastias. Mas no cinema mesmo, Duna ficou parado sem qualquer tentativa bem sucedida.


Claro que ainda existem dúvidas se será dessa vez que Duna será bem adaptado para a telona. Pessoalmente, tenho confiança em Denis Villeneuve, diretor dessa nova versão. Villeneuve tem um currículo invejável, Os Suspeitos, o primeiro Sicario, A Chegada, Incêndios, dentre outros. Ele é um dos poucos cineastas da atualidade que tem uma voz autoral firme e consegue trabalhar com filmes blockbuster que vão além do aspecto filme-pipoca e induzem o espectador a pensar com profundidade nos personagens e nas ramificações da trama. Blade Runner 2049, continuação do clássico original e antecipado há décadas, foi obra dele, e foi de uma qualidade indiscutível. Diria até que Villeneuve consegue ser mais consistente e impactante que Christopher Nolan. Digo isso até pela facilidade que ele tem em migrar de um gênero para outro. Essa versatilidade Nolan não possui no mesmo grau.


Por isso tenho fé que Duna dará certo dessa vez, e as imagens ao lado falam por si só. O novo elenco é encabeçado por Timothée Chalamet (Lady Bird), e inclui também Oscar Isaac (Star Wars) e Javier Bardem (Skyfall). A princípio, o filme continua marcado pra estreia ainda este ano (mas pode mudar dependendo da quarentena).


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Muitos usam atores como referência para escolher qual filme ou série irão assistir. Pessoalmente, faço essa escolha usando escritores e roteiristas como referência.


David Simon é um nome obrigatório pra quem estiver analisando qualquer lista de 5 melhores séries já exibidas. Com certeza, alguém já ouviu falar de The Wire (A Escuta, no Brasil). Caso não tenha, vamos relembrar.


David Simon começou como jornalista, e fez carreira como repórter policial no Baltimore Sun, acompanhando detetives em diversos casos. Esse trabalho foi a base para um livro de não-ficção, Homicide: A Year in the Killing Streets. Esse livro então serviu de base para a aclamada série policial Homicide: Life on the Street, que durou 7 temporadas de 1993 a 1999, e um telefilme em 2000. Simon permaneceu na carreira de jornalista e escritor até que teve a oportunidade de escrever um episódio de Nova York contra o Crime. Isso lhe garantiu um primeiro passo em Hollywood. Em seguida, tornou-se parte da sala de roteiristas de Homicide nas últimas temporadas.


Simon então assinou contrato com a HBO e produziu uma aclamada minissérie chamada The Corner (A Esquina), que adaptava a jornada de três usuários de drogas pesadas nos distritos pobres de Baltimore. Isso que finalmente o leva a estabelecer uma relação duradoura e permanente com a cúpula da HBO, levando-o a vender a ideia de The Wire para o canal.


A série mostra a guerra contra as drogas em etapas. A primeira temporada mostra uma narrativa convencional de policiais investigativos indo atrás de um grupo específico de traficantes (a família Barksdale). Já a segunda mostra de onde vem e onde passa o dinheiro, mostrando todo um mundo a parte envolvendo sindicatos nas docas e a máfia grega. Já a terceira inclui o lado político de Baltimore e como esse mundo colide com as políticas de combate às drogas. A quarta temporada entra no ensino público e mostra como o crime seduz jovens pobres sem futuro, e por fim a quinta temporada mostra o papel da mídia e do jornalismo nesse processo todo. Em parceria com o ex-policial e professor de ensino público Ed Burns, Simon elaborou toda essa narrativa dramática, todo esse universo fictício de Baltimore populado pelos mais diversos personagens e mostrando de forma nua e crua como o sistema funciona*.


*E de forma bem menos didática e muito mais eficiente que qualquer Tropa de Elite.


Foram cinco temporadas brilhantes, de 2002 a 2008, que demonstraram todo o potencial de contar uma história fictícia tão próxima da realidade em que vivemos. Este tem sido o talento de Simon. Contar histórias de aspecto sociológico. Toda sua filmografia é impecável: Generation Kill (guerra no Iraque), Treme (Nova Orleans, pós-Katrina), The Deuce (a indústria pornô nos anos 1970/1980 e a eventual "limpeza" de Nova York), dentre outros projetos. As séries de Simon nunca foram líderes de audiência (até porque pra isso a HBO usa blockbusters como Westworld e Game of Thrones), mas são reconhecidas e aclamadas de forma quase unânime pela crítica.


Passado toda essa longa recapitulação, vamos ao motivo principal do título de hoje: The Plot Against America.


Simon e Ed Burns se reuniram a fim de desenvolver essa nova minissérie para a HBO. Baseada no livro de 2004, do recém-falecido Philip Roth, a trama mostra uma realidade alternativa dos EUA em 1941, na qual o presidente Franklin Roosevelt teria perdido nas eleições presidenciais para um piloto de aviões famoso, Charles Lindbergh.


Historicamente falando, sabe-se que Lindbergh existiu de verdade, e foi realmente um ativista político. Ele fez campanha contra o envolvimento dos EUA, na Segunda Guerra Mundial, alegando que o ocidente precisava se manter unido e livre de qualquer conflito destrutivo a longo prazo. Só que ele também tinha visões controversas a respeito de raça e pureza. Para ele, a raça branca tinha de ser preservada, e ele via a presença crescente de judeus como um caldeirão de problemas a risco de explodir. Claro que quando a Segunda Guerra explodiu de fato e o campos de concentração foram expostos, Lindbergh acabou reconsiderando suas ideologias.


Simon e Burns fizeram ampla pesquisa dessa história, criando assim essa história norte-americana alternativa que serve como pano de fundo para a trama da minissérie. A trama mostra essa reviravolta política do ponto de vista de uma família judia modesta que vive em Nova Jersey.


O patriarca Herman Levin (Morgan Spector) é um judeu idealista de esquerda que tem o hábito de frequentar o cinema local para saber as notícias da guera enfrentada pelos britânicos contra o nazismo, e também ouve diariamente um âncora de rádio anti-Lindbergh, reforçando assim a bolha na qual vive.


Contudo, essa bolha vai sendo rompida quando Lindbergh conquista o apoio de cidadãos e até vizinhos próximos. Inclusive, sua cunhada Evelyn Finkel (Winona Ryder) entra em um relacionamento com o rabino e ativista Lionel Bengelsdorf (John Turturro) que lidera a comunidade judaica local e apoia Lindbergh em sua campanha política. Ambos trabalham pra incorporar esses interesses judaicos às iniciativas de Lindbergh. A princípio, tudo isso é ancorado na ideia que judeus estão apoiando Lindbergh para impedir que o país que os abrigou entre numa guerra que pode colocar tudo a perder.


Só que a medida que a série progride, vemos que Lindbergh na presidência tem fascínio pelos alemães e passa a convidar oficiais nazistas pra eventos. Ao mesmo tempo, os apoiadores do presidente, sentem-se encorajados a demonstrar cada vez mais seu antissemitismo, sentimento cada vez maior na população.


Simon, por sua vez, é corajoso ao mostrar essas consequências através de todos os pontos de vista da família, incluindo os filhos mais jovens de Herman e Elizabeth (Zoe Kazan), que vêem a escalada gradual dessa onda de ódio e intolerância. Já Alvin (Anthony Boyle), sobrinho da família, e defensor radical do judaísmo migra ilegalmente para o Canadá, a fim de ingressar na guerra, e acaba perdendo uma das pernas no combate. E há um conflito permanente entre Herman e Elizabeth, e o desejo dela emigrar para o Canadá, a fim de escapar dessa perseguição, mas enfrenta a resistência do marido em querer manter seus valores e suas raízes naquele lugar que ele ainda considera como um lar.


Quatro episódios já foram exibidos, com os dois próximos vindo em breve. Recentemente, oficiais do FBI de Hoover começaram a questionar os filhos a respeito das intenções de Alvim em ter ido a guerra, o que leva ao cadeirante perder o único emprego que ainda tinha. E assim vão caindo as máscaras, e pessoas que antes consideravam-se amigas passam a ser vista com outros olhos. Olhos de desconfiança. Começa assim o início de um movimento até pior que o Macarthismo.


E para uma produção requintada de época, é difícil as vezes separar o ódio e intolerância vistos do que vemos hoje nas ruas. Dá para se dizer, sem qualquer ressalva, que é historicamente fácil deixar os valores democráticos de lado, e perder nossas liberdades básicas sem que sequer percebamos. Não há dúvidas que Simon elaborou essa versão alternativa da história norte-americana como uma obra de reflexão em meio ao caos político e social criado pela divisão e extremismo crescente em meio a presidência de Trump. Mas o mesmo pode ser facilmente aplicado no contexto atual em que nós brasileiros vivemos sob a presidência de Bolsonaro.


Vemos isso com a quantidade de mentiras que ele propaga pelas redes sociais, que então são ampliadas pelas milícias digitais. Usam o mesmo discurso de ódio e intolerância como método para se fortalecerem politicamente. Apesar de ser eleito teoricamente para governar a todos, ele só joga com a base mais fiel. E assim as divergências vão crescendo, e os conflitos se exacerbando. Chega ao ponto do ridículo quando temos pessoas defendendo a quebra de quarentena em meio a essa pandemia por temer a perda da legitimidade de sua ideologia política e econômica.


Por isso que reforço a necessidade de conferir obras como essa. Não só é um retrato nu e cru dos problemas que enfrentamos, mas são séries do mais alto calibre narrativo e dramático.



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Star Wars - Versão Alternativa

(3 de abr. de 2020)




Nos últimos meses, vimos as mais variadas respostas que A Ascensão Skywalker gerou. O capítulo final da saga foi tão divisor quanto seu antecessor, Os Últimos Jedi. Enquanto alguns aplaudiram o filme por capturar o mesmo espírito de aventura do filme original, outros reiteraram as mesmas críticas feitas a toda nova trilogia, reforçando a ideia de que esses filmes foram produzidos sem qualquer estratégia ou planejamento. 


E acho que por mais que se goste de Star Wars, e ainda dê para curtir os momentos emocionantes que esses novos filmes proporcionam (principalmente o papel expandido do robô C-3PO no filme), não diria que a alegação acima é desprovida de mérito. Muito pelo contrário.


Vazou recentemente na internet uma versão anterior do roteiro do filme. Como muitos devem saber, J.J. Abrams (O Despertar da Força) não voltaria para dirigir A Ascensão Skywalker. A ideia original dessa nova trilogia era um diretor diferente por filme, e assim a direção do último capítulo teria sido de Colin Trevorrow (Jurassic World). Só que como muitos sabem, a Disney (junto com a alta cúpula da Lucasfilm) rejeitou o roteiro de Trevorrow e recontratou Abrams. A versão vazada agora é a de Trevorrow.

E o nome do roteiro é até melhor que o nome atual do filme: Duel of the Fates. 


Para quem não lembra, Duel of the Fates era o nome da trilha sonora principal composta por John Williams para o Episódio 1: A Ameaça Fantasma, em 1999. Era a música de fundo nas cenas de combate entre Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor), Qui-Gon Jinn (Liam Neeson) e Darth Maul (Ray Park). 


E um aspecto que esse roteiro acerta em comparação com o filme que foi lançado, logo de cara, é que ele não depende tanto de nostalgia para criar uma trama empolgante, e ao mesmo tempo impactante.


Em resumo, os primeiros 40 minutos de filme tem algumas semelhanças com a versão final. Contudo, a trama muda completamente da metade pro final. E é nesse parágrafo que entramos em território de SPOILERS. 


1. A maior mudança, evidentemente, é a ausência do Imperador Palpatine (Ian McDiarmid). Na versão original, Kylo Ren (Adam Driver) permanece sendo o antagonista principal, seguindo a linha narrativa estabelecida pelo filme anterior. Ren ganha um novo mestre SithTor Vallum, um alienígena de 7000 anos, e depois o assassina. Além disso, Ren enfrenta uma imagem de Darth Vader numa caverna, similar a cena de Luke na caverna em Dagobah, no Império Contra-Ataca. 


2. Rose Tico (Kelly Marie Tran) tem muito mais tempo de cena e destaque na trama. 


3. Rey (Daisy Ridley) constrói um sabre de luz duplo, similar ao de Darth Maul, usando partes e sobras da espada destruída de Anakin Skywalker (Hayden Christensen). 



4. Há uma certa tensão sexual entre Rey e Poe Dameron (Oscar Isaac).


5. Boa parte do filme se passa em Coruscant, antiga capital da República, que é agora quartel-general da Primeira Ordem, onde o General Hux (Domnhall Gleeson) reina com tirania e continua a ver Ren como ameaça a sua autoridade. Uma batalha enorme é conduzida no planeta. 


6. Vemos novamente o castelo de Darth Vader, em Mustafar, antes visto em Rogue OneRen é constantemente atormentado pelo fantasma de Luke Skywalker (Mark Hamill). 


7. A Princesa Leia (Carrie Fisher) sobrevive até o final do filme. 


8. O planeta Mortis, populado por seres místicos que representam os diferentes lados da força, é alvo de busca por Rey e Ren. O planeta já havia aparecido em episódios da série animada Clone Wars. 


Enfim, a primeira impressão que passa é que mesmo sem pender pra nostalgia que a versão de Abrams, o roteiro de Trevorrow ainda consegue capturar o espírito de aventura que a saga de George Lucas tinha. É óbvio que produzir um filme é um processo colaborativo, e não dá para afirmar com certeza que a versão de Trevorrow teria sido necessariamente melhor. Mas não dá para negar que ela era no minimo ambiciosa do ponto de vista narrativo. 


E assim ficamos nessa situação de ponderar realidades alternativas. Assim como podemos imaginar como teria sido o Episódio 9 nas mãos de Trevorrow, poderíamos imaginar como teria sido essa trilogia se a Disney não tivesse descartado as ideias que Lucas tinha. 


Por mais que Lucas tenha adaptado a história dos filmes com o passar dos anos, se há uma descrição que se pode reiterar nessa nova trilogia é que faltou realmente um certo planejamento. Essa escolha de pensar um filme de cada vez sem ponderar as repercussões de cada episódio, e colocar um diretor diferente começando do zero acabou por criar uma obra bem desconexa, que não dialoga bem entre si, e que cria várias contradições.


O fato é que Abrams, por mais competente que seja como diretor, está acostumado a ser aquele que tenta agradar a todos, e acaba usando a nostalgia como forma de criar algo nesse sentido, evitando colocar um carimbo mais autoral na sua produção. Os próprios depoimentos recentes do roteirista Chris Terrio demonstram que o episódio 9 foi feito às pressas pra agradar a cúpula da Disney, com 30 revisões de roteiro por semana e inúmeras horas passadas reeditando o filme várias vezes. Essa falta de confiança na história mostra o quanto estavam perdidos na tentativa de agradar os executivos.


Se quiser saber mais sobre a versão de Trevorrow, acesse o roteiro completo nesse link. Espero que tenha curtido algumas das ilustrações dessa versão do filme, ao lado desse texto, e que também foram vazadas. Confira também o divertido vídeo abaixo (em inglês), que é uma versão animada de como teria sido o filme. 




Posted in 0 comentários Postado por Eduardo Jencarelli às 13:13