Acho que posso dizer com convicção que Lovecraft Country é a série sucessora espiritual de Watchmen.


Quem assistiu a Watchmen no ano passado sabe que a série concluiu sua primeira e única temporada. Mais do que atingir as expectativas da obra original de Alan Moore, a série da HBO foi capaz de encontrar novos ângulos e explorar temas que os quadrinhos não haviam explorado. Principalmente a questão racial que foi central na série, com um elenco de maioria negra e dando uma aula de história para o público ao mostrar o pouco conhecido e verídico massacre de Tulsa da década de 1920. Foi uma temporada ousada e quase impecável. Mas sem planos para futuras temporadas, os fãs dessa excelente adaptação de Damon Lindelof ficaram órfãos.


Eis que surge Lovecraft Country. Adaptação do romance de Matt Ruff produzida pela roteirista Misha Green, em parceria com os produtores Jordan Peele e J.J. Abrams.


Nunca li uma obra de H.P. Lovecraft. Conheço ele por reputação como autor clássico do gênero de terror. Nunca foi um gênero que me prendeu muita a atenção, tanto no cinema e na TV quanto na literatura. Mas a série está sendo capaz de prender por completo graças a forma como apropria as convenções do gênero e conta sua própria história original com personagens complexos e interessantes.


Assim como Watchmen, Lovecraft Country aborda vários gêneros e convenções narrativas usando como tema central a questão racial. A série se passa na década de 1950, logo após a Guerra na Coréia. Seguimos os passos de Atticus Freeman (Jonathan Majors) e Letitia Lewis (Jurnee Smollett-Bell). Atticus é veterano da guerra e tem uma relação complicada com o pai, Montrose (Michael K. Williams). Atticus cresceu principalmente com a influência do tio, George (Courtney B. Vance), um escritor que fez dele um leitor assíduo de inúmeras obras, principalmente de ficção científica. Já o pai tem uma relação abusiva com ele, fruto de uma infância igualmente abusiva, passada de geração a geração, graças a herança escravocrata do país.


Existe logo de cara esse conflito inicial. Nossos protagonistas não são estereótipos, e sim pessoas estudiosas que vivem num contexto marcado pelo racismo e pelo ódio. Por mais que tentem estudar, trabalhar, viver honestamente e tentem ser mais, sempre serão vistos como invasores, como criminosos, como erro da natureza pela classe dominante. Sempre vistos com desprezo pelos vizinhos brancos. É um conflito principalmente de legado negro e questionando o revisionismo histórico das elites.


Sem entrar muito em território de spoilers, a série começa com a busca de Atticus pelo pai. Ajudado pelo tio e pela própria Letitia, amiga de infância, eles embarcam numa jornada pelo país que termina envolvendo passagens por distritos guardados por policiais territoriais* e racistas, e culmina com um encontro quase fatal com monstros que saem do chão durante a noite. Monstros que parecem que saíram das páginas de Lovecraft. Só que passar pelos policiais de forma ilesa gera muito mais tensão e medo do que o encontro com os monstros em si. O tema é sem dúvida de que o ser humano é muito mais perigoso que o inexplicável e o sobrenatural.


*Por sinal, há um capitão da polícia que é um dos personagens mais asquerosos que já vi.


Fui então descobrir que H.P. Lovecraft era na verdade um pessoa racista. Fato que eu não sabia.


Não gosto da ideia de colocar tarjas em pessoas. Essa é em si uma atitude racista. Mas também não dá para ignorar os aspectos de cada um. Uma pessoa é definida pelo que ela sente. No caso de Lovecraft, isso significa levar em conta como essa mistura de medos e etnocentrismo informam a tensão presente em suas obras. Medo é um aspecto central do gênero que ele dominou. Não que isso impeça que outros queiram ler suas obras. Acho importante separar o artista da arte que ele cria, desde que estejamos claros sobre quem essa pessoa é e o que ela representa e tenta expressar.


Já a série faz uma escolha narrativa bem interessante. Ela não se transforma em um filme de 10 horas, ou uma novela prolongada. A trama principal, que envolve um mistério a respeito do pai de Atticus e uma ligação com uma seita de feiticeiros brancos da época colonial, não é o aspecto central da série. Ela é subdividia em episódios quase isolados, envolvendo uma aventura distinta. Isso preserva o estilo tradicional de seriado norte-americano, no qual cada episódio é uma história em si. O primeiro episódio lida com o desaparecimento e a procura pelo pai. O segundo é uma história de Frankenstein na casa dos horrores, enquanto no terceiro Letitia compra uma casa em Chicago que é habitada pelos espíritos de escravos torturados.


E todas essas tramas vem com começo, meio e fim. Isso gera uma segurança e estrutura que a maioria das séries atuais não possuem. Isso é algo que a Netflix faria bem em aprender. Nem tudo precisa ter gancho pro episódio seguinte. É perfeitamente possível fazer um binge-watching de uma série assim.


Sendo uma produção HBO, a série não poupou nem um pouco no design de produção, nos efeitos e na fotografia. Cada episódio parece uma megaprodução de cinema. E o elenco 90% afro-americano é brilhante. Sigo a carreira de Jurnee Smollett-Bell desde sua participação em Friday Night Lights. Ela possui uma paixão e dedicação a suas personagens que fortalece cada cena. Há uma cena em Lovecraft Country em que ela passa por uma experiência de vida ou morte, e a reação dela a isso é uma das cenas mais fortes que eu já vi em qualquer produção. E eu não conhecia Jonathan Majors. Uma revelação e alguém promissor a ser ver nos próximos anos.


A série continua no ar na HBO, com sete episódios ainda para serem exibidos. Recomendo com toda certeza.



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Jon Snow - O Protagonista Passivo

(19 de jun. de 2020)




Tendo passado praticamente um ano desde o final de Game of Thrones, achei que já era hora de reavaliar certos aspectos da série. Longe o suficiente da polarização e do final controverso, acho que é hora de falar um pouco sobre Jon Snow.


Jon Snow dá um bom estudo sobre a função de um protagonista numa história. Digo isso porque honestamente, ele não é um personagem digamos ativo. Snow sempre foi passivo em todos os aspectos. Iremos lidar com SPOILERS nesse argumento. Fica de aviso.


Lembrando, Jon Snow é filho de Lyanna Stark, fruto de seu romance proibido com o príncipe Rheagar Targaryen. Só que durante anos a série - e os livros na qual é baseada - mantiveram esse fato como segredo. Durante anos, Snow sempre foi visto como o filho bastardo de Ned Stark - que supostamente teria tido um caso com uma garota fora do casamento duranta a guerra.


E no mundo fictício de Westeros, ser um bastardo é um estigma pior do que aquele que sofre diariamente preconceito racial ou mesmo aqueles que sofrem abusos por terem sexualidades diferentes. O fato da pessoa ter sido fruto de um relacionamento fora do matrimônio é visto como o pior dos pecados, mesmo ela não tendo nenhuma culpa pelo fato. Isso ocorre principalmente graças a ignorância da população de Westeros, pobre e desprovida de qualquer instrução ou educação formal, cuja única fonte de referência para construção de ética e moral vem das instituições religiosas. É fácil direcionar o ódio de um desamparado para um alvo fácil como um filho bastardo. Assim, as instituições se protegem.


Por isso mesmo, o caráter de Snow foi construído nessa passividade. Ele nunca pôde sentar-se na mesma mesa de jantar que seus irmãos de criação (isso foi garantido pela madrasta tradicionalista Catelyn Stark). Snow nunca pôde contestar sua posição na família ou na sociedade. Desde criança tem sido instruído a sempre seguir as leis e jamais questionar o mundo. Sempre foi denegrido por sua herança e sempre foi lhe lembrado que jamais teria um futuro promissor. Ser o bastardo seria seu fardo e sua responsabilidade.


Por isso mesmo, Snow foi para a muralha e se tornou mais um dos servos da noite, fazendo juramento de jamais abandonar seu posto ou tomar uma esposa. O resultado disso foram cinco temporadas com Snow na muralha ou explorando as terras ao norte, sempre no cumprimento de sua missão de proteção de Westeros. Só que ao seguir esse caminho, Snow se tornou essencialmente o protagonista passivo.


Os demais personagens de Game of Thrones sempre foram ativos, ecléticos e repletos de personalidade. Arya Stark, Tyrion Lannister, Cersei Lannister, Jaime Lannister, Sansa Stark, Daenerys Targaryen. Todos personagens distintos que impulsionam a trama. A Rainha dos Dragões com seu discurso de liberdade aos oprimidos e ódio pelos usurpadores do trono. A forma como Cersei sempre combateu o patriarcado para atingir suas ambições. A forma como Arya internalizou seu desejo de vingança e assim formou seu caráter assassino. O desejo de Tyrion ser visto como mais que um anão, e conseguir merecer o amor de sua família.


Snow nunca foi definido por qualquer paixão ou desejo. Sempre foi o garoto obediente que seguia as ordens. A personagem mais próxima desse tipo nessa história talvez seja Brienne, com seus juramentos e promessas (e ainda assim tem mais personalidade e ímpeto que Snow).


De certa forma faz sentido que Snow seja o avatar passivo da muralha. Suas ações para conter as investidas dos Selvagens e dos Caminhantes Brancos servem um propósito na trama. Mas também com o propósito de criar uma ameaça externa que une todas as facções de Westeros na reta final da trama. É por isso que eu considero a batalha final contra os Caminhantes Brancos até decepcionante, porque não dialoga com o que pode ser considerado o fio central da série, que é o conflito entre as facções. O aspecto que mais atraía interesse do público.


E é por isso também que o romance entre Snow e Daenerys não convenceu. Além do fato dos dois atores não terem afinidade, é evidente que esse romance foi criado de forma artificial, pegando carona na premissa de Jon Snow na verdade ser descendente dos dragões assim como ela, e esperando que isso gerasse um conflito novo.


Só que esperar conflito quando um dos personagens é tão passivo assim é esperar demais. O próprio Snow não desejava uma posição de liderança. Ele ganhou a posição na muralha após o assassinato de seu líder. E só foi colocado na liderança da investida contra Ramsay Bolton porque era o único Stark masculino vivo perante os aliados, e porque nenhum deles aceitaria Sansa, uma menina, como líder. Snow sempre liderou não pela ambição, mas pela necessidade de se fazer o certo. Isso mostra como ele foi a melhor cria de Ned Stark, o mais capaz de encarnar os valores do pai (mesmo que adotivo).


O mais interessante é que Jon Snow teve um romance muito mais ardente e interessante com a selvagem Ygritte do que com a Rainha dos Dragões. Ali dava para ver uma faísca de paixão e até mesmo vontade própria por parte de Snow, que mesmo sendo o inocente em aprendizado do relacionamento, ainda demonstrava paixão e personalidade própria*. Snow sempre se sentiu muito mais a vontade dentre os Selvagens exilados. Outro momento que quebrou a passividade de Snow e mostrou algum caráter foi quando ele abandonou a Irmandade após ter sido assassinado por seus colegas (e ressuscitado, para que não fiquem em dúvida). Nquele ponto da trama (sexta temporada) foi talvez a última vez que Snow mostrou esse lado dele, esse resquício de individualidade.


*Também ajudou o fato de Kit Harington ter muito mais afinidade com Rose Leslie, a atriz que encarnou Ygritte.


Vale lembrar que Game of Thrones, a obra como um todo, foi concebida por George R. R. Martin como uma desconstrução do gênero da fantasia, quebrando e subvertendo expectativas de como uma história assim deve ser contada. Não há heróis absolutos nem vilões absolutos. A violência é sangrenta e a trama sempre terá consequências. Você vê isso na primeira temporada, quando matam Ned Stark, o protagonista que deveria ter exposto toda a corrupção e situação de incesto na Corte Real, e acabou pagando com a vida. Vemos isso novamente na terceira temporada durante o fatídico Casamento Vermelho, que culmina com as mortes de mais Starks.


Por isso mesmo, fiquei surpreso com a revelação de que Snow seria um Targaryen (fato que até hoje não foi confirmado nos livros - ainda não concluídos). Em primeiro lugar porque isso seria uma traição dessa mesma subversão narrativa. Colocar Snow nesse pedestal seria revitalizar o conceito do herói absoluto, com uma missão e cumprindo seu lugar na profecia. Em segundo porque a ideia de Snow ser de linha sanguínea real é menos interessante do que a ideia de um bastardo ser o herói por si só.


Felizmente, mesmo com os tropeços narrativos das últimas temporadas, a série conseguiu honrar essa questão narrativa de nada ser absoluto nesse mundo. Quem lembra sabe que Snow assassinou Daenerys após ela conduzir o massacre a população da capital e tomar o trono a força. A consequência desse atentado foi ele ser banido mais uma vez para o norte. Uma vez o bastardo exilado, sempre o bastardo exilado. Snow assim termina a história como começou, criando uma forte simetria. Considero essa a melhor forma de concluir essa obra. Pelo menos, a mais consistente com sua premissa e a forma como se vendeu ao público.


É muito mais gratificante quando vemos que é o anão que termina essencialmente como a figura política mais influente no reino. Na narrativa medieval tradicional, jamais imaginaríamos que o Bobo da Corte pudesse ser o personagem capaz de subverter essas mesmas expectativas. Mas foi isso que aconteceu com Tyrion Lannister. Esse já havia nascido num berço de ouro, dentro de uma família poderosa. Já tinha status e poder. Não começou do zero que nem Snow. Mesmo sendo definido por sua estatura, ele subverteu a expectativa de Bobo da Corte e garantiu sua posição privilegiada no final da história. Mostrou que tinha caráter e nuance. Esse sim impulsionou a trama.


Se Snow tivesse terminado no trono, invicto, acho que seria uma traição da ideia original de Game of Thrones. Você pode cavar seu destino nesse mundo, mas isso não lhe garante que terá o mesmo fim glorioso que um protagonista de ficção convencional.



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Sobre o que é Indiana Jones e a Última Cruzada?


O clássico terceiro filme do arqueólogo interpretado por Harrison Ford e criado por George Lucas e Steven Spielberg foi lançado há 31 anos. Considero ele o melhor filme dentre os quatro lançados, melhor até mesmo que o clássico original, Os Caçadores da Arca Perdida.


E até hoje me pego debatendo e ponderando o significado do filme. Qual o tema que impulsiona sua trama? Muitos citarão o plot básico. Que o filme é sobre a busca que Indy faz atrás do cálice sagrado de Jesus, o Santo Graal.


Mas eu diria que o filme é na verdade a resposta que George Lucas resolveu dar ao último capítulo da trilogia de Star Wars: O Retorno de Jedi.


Para quem não lembra, a trama de Star Wars lida com a jornada de Luke Skywalker, que luta contra o Império galático e descobre que o vilão Darth Vader é seu pai durante o segundo filme, O Império Contra-Ataca. Já no Retorno de Jedi, ele ao invés de lutar contra o pai, ele tenta salvá-lo das garras do Imperador Palpatine e do lado negro da força. Ele consegue, só que seu pai sacrifica a própria vida ao salvar o filho de um ataque mortal de Palpatine.


Em outras palavras, Vader jamais tem a chance de se redimir por seus pecados e voltar a ser o pai que Luke jamais teve a chance de conhecer e conviver. Luke tomou a decisão de poupar seu pai de uma morte em combate em amor a ele, e para não se entregar a raiva e ao ódio que guiam o lado negro da força. Foi uma decisão amorosa, mas era tarde demais para salvar seu pai e ter uma segunda chance.


Indiana Jones e a Última Cruzada foi a forma que Lucas encontrou para dar a seu protagonista essa segunda chance com seu pai. Indy nunca foi próximo de seu único parente, Henry Jones Sr. (Sean Connery). Mesmo após o falecimento da mãe de Indy, Henry Sr. passou a vida dedicado ao estudo e pesquisa do Graal. Indy sempre resguardou ressentimento por essa sensação de abandono e acabou se tornando um lobo solitário, professor ocasional e arqueólogo no tempo livre.


Uma das cenas mais marcantes do filme e da trilogia é quando Henry vê o tanque nazista caindo do penhasco e percebendo que haveria perdido a chance de resolver as pendências com o filho. Ao ver Indy vivo e ileso, sua reação traz mais catarse emocional que qualquer diálogo. É o momento que redefine a relação de pai e filho pra algo muito mais próximo e amoroso. Spielberg filma esse momento com honestidade e franqueza, especialmente com as reações dos colegas Marcus e Sallah que conviveram com Indy e como esse afastamento do pai o afetou ao longo dos anos.


Vale lembrar que Spielberg também teve uma relação complicada com o pai, o culpando pela separação de sua mãe décadas antes. Ele levou todo esse tempo pra conseguir fechar o abismo emocional que os separava. Mais um aspecto da vida real que informa a dinâmica desses personagens.


Com essa reunião emocional amarrada, o filme então torce de forma violenta as emoções do público ao mostrar Henry sendo baleado pelo vilão Donovan, forçando Jones a ir atrás do Graal e depositar sua fé na esperança de cura do pai. Uma aula de roteiro, expectativa e manipulação emocional no melhor sentido.


Por isso que a vitória de Indy nesse filme é tão merecida, muito mais que no primeiro filme. Os nazistas sendo consumidos pela magia da arca não tem o mesmo impacto que Indy arriscando a própria vida pra ter essa segunda chance com o único pai que tem. E é nessa hora que não dá para evitar de imaginar uma versão de Star Wars na qual Vader sobrevivesse e tivesse uma nova chance com o filho. A Vingança dos Sith deixa claro que Anakin já foi uma boa pessoa, capaz de amar e proteger.


Momentos como esses mostram o impacto que mesmo os filmes blockbuster comerciais podem ter quando os cineastas por trás constroem essas histórias com paixão e esforço.






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Aproveitando para abordar uma questão que deixei de lado no texto anterior.


Um dos problemas que eu havia citado na questão da relação do público com o anti-herói era o fato de muitos espectadores torcerem pelos protagonistas apesar de suas ações moralmente desprezíveis. Citei inclusive o fato de tantos abraçarem a filosofia de personagens como o Capitão Nascimento na vida real.


E existem também aqueles casos de pessoas incapazes de separarem a ficção da realidade, a ponto de assediarem certos atores pela forma como os papéis ficcionais deles os afetaram. Um exemplo disso foi a forma como fãs atacaram a atriz Anna Gunn por seu papel de Skyler White em Breaking Bad, a demonizando por ser um obstáculo moral no caminho de Walter White. Como se ela realmente fosse a vilã da história, ignorando completamente as mortes causadas pelo professor.


Mas existe um gênero na ficção no qual é possível se investir e até torcer para protagonistas desse cunho sem qualquer ressalva moral: comédia. Especificamente sátira. Quando a narrativa flerta com o ridículo, fica muito mais fácil abordar esses personagens sem perder a objetividade. Mas vou citar como exemplo uma série dramática nesse caso, cujo conteúdo se encaixa bem.


Succession é uma série recente da HBO que aborda as vidas de membros de uma família multimilionária e dona de um conglomerado midiático norte-americano (supostamente baseada na dinastia de Rupert Murdoch). Temos o patriarca envelhecido com saúde debilitada que mantém controle de suas empresas com mão de ferro, e do outro lado temos seus filhos que lutam pelo controle da mesma e tentam sair da sombra do pai, mostrando do que são capazes. É uma trama clássica hollywoodiana, mas no caso dessa série, estamos lidando com seres humanos moralmente desprezíveis em todos os aspectos.


Um aspecto interessante dessa produção é que mesmo sendo tecnicamente da categoria drama, ela acabou por empregar vários roteiristas mais conhecidos de comédia, incluindo vários veteranos da série Veep. Para quem não lembra, Veep (2012-2019) foi uma sátira da política norte-americana, focada na vice-presidente Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus) e sua turma de colaboradores e agentes políticos. Pessoas igualmente desprezíveis capazes de qualquer manobra para se perpetuar no poder. E é uma série hilária, escatológica e surpreendentemente verídica. Uma das melhores e mais ousadas comédias da década.


Voltando a Succession, percebemos que não são personagens com os quais a maioria do público teria capacidade de se conectar. O patamar financeiro deles os dá uma liberdade de alcance quase infinito, a tal ponto de não terem qualquer compromisso com moral ou ética. Vemos isso logo no primeiro episódio quando resolvem fazer uma aposta de o filho do jardineiro é capaz de acertar uma bola, prometendo uma recompensa de US$ 1 milhão caso consiga. Que espectador teria simpatia com personagens que agem dessa forma?


Essa brincadeira intencional com as emoções e expectativas das demais classes sociais deixa claro em que nível moral eles se encontram. A única forma de conectarmos com esses personagens é investindo no exagero e no ridículo. Cenas como o filho mais novo se masturbando na janela do escritório da empresa - um dos pontos geográficos mais altos de Nova York - ou o pai fazendo o presidente dos EUA esperar na linha telefônica de propósito são formas de extravasar essa insanidade e ainda assim manter essa objetividade. Quando a série expõe o ridículo dessa forma, ela se sobressai, mesmo sendo um drama que nos pede para investir na jornada do filho que é exonerado pelo pai. E mesmo assim, esse mesmo filho não deixa de ter seu lado sociopata.


No fim das contas, vemos entretenimento para fugir da realidade. Mas é pertinente saber separar a ficção da realidade e manter objetividade nessa relação.


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Se há um aspecto narrativo que diferencia o cinema e a TV de hoje em dia comparado às produções de 30 ou 40 anos atrás é a presença cada vez maior do anti-herói.


E quem é o anti-herói? Já se foi a época em que o gosto público e a cultura pop eram definidos por heróis tradicionais. A figura sem qualquer falha moral ou defeito (fora talvez o hábito de fumo excessivo nos filmes de antigamente).


Inclusive, ainda dá para se dizer que a figura do herói tradicional persiste hoje. Mas é uma figura atualizada, mais ciente dos seus defeitos e falhas, mas que ainda assim luta pelos seus ideais e por um mundo (ou universo) melhor. Não é a toa que o cinema blockbuster hollywoodiano atual se tornou uma indústria direcionada pelos super-heróis da Marvel e a volta de Star Wars.


Quando pensamos em anti-herói, a tendência é olhar para a nova era de ouro da TV que começou há cerca de 20 anos. Protagonistas como Tony Soprano (A Família Soprano), Don Draper (Mad Men) e Walter White (Breaking Bad) são os primeiros exemplos que nos vem a cabeça. São personagens de moral e ética completamente divorciada do herói tradicional. O primeiro é um mafioso capaz de matar pessoas com as próprias mãos, o segundo é um homem que usurpou a identidade do companheiro morto na guerra, e o terceiro é um professor de química que resolve produzir metanfetamina para ganhar dinheiro e poder, destruindo inúmeras vidas, incluindo sua própria família.


Não há qualquer dúvida. São pessoas que jamais teríamos interesse em conhecer de perto na vida real. Mas aí entra um dilema: por que torcemos para esses personagens?


Não há uma resposta simples a essa pergunta. Mas dá para ter uma noção de como esse processo é criado. De início, temos de analisar os roteiros dessas obras. Digamos que a estrutura narrativa dessas histórias ainda seguem o modelo tradicional de 3 atos (ou 4 atos, na TV). Cada detalhe desses roteiros é construído e estruturado de forma minuciosa a gerar emoções por parte do espectador. E por fim, quando ele ou ela sequer percebe, já está investido na jornada do protagonista e torcendo abertamente. Isso ocorre porque o objetivo desses roteiros é explorar o emocional em detrimento da lógica.


Walter White é estabelecido no primeiro episódio como um professor mal pago acometido com um câncer incurável. Isso cria empatia por parte do público. É uma pessoa como qualquer outra, vivendo o mesmo cotidiano de sempre, e que luta a cada dia, sem qualquer dignidade ou auxílio exterior. Do ponto de vista dele, ele se sente sempre emasculado por todos, incluindo a própria família - que o ama. Assim, o roteiro já consegue fisgar o espectador e colocá-lo na posição de Walter White. Agora que fez isso, dá o primeiro twist e flerta com a possibilidade de cometer uma pequena transgressão que a princípio não fará mal a ninguém. Cozinhar a primeira dose da droga. E de pouco em pouco, Walter vai entrando num caminho sem volta, a trama vai se complicando e seus piores instintos vão dominando sua personalidade pacata anterior. Quando menos percebemos, já estamos vendo um monstro no lugar daquele professor.


Mas até que ponto o público é capaz de torcer por essa figura sem perceber que está literalmente legitimando as atrocidades e crimes do personagem?


Cada espectador reage da sua forma. Alguns percebem de cara. Outros sequer notam. E cada um reage de acordo com seu senso de moral e ética. Mas também acredito que a maioria compreenda que estamos lidando com obras de ficção. Óbvio que uma discussão sobre a moralidade de personagens fictícios não necessariamente diz algo sobre o caráter de cada espectador.


O que me preocupa as vezes, é quando alguém adota o caráter de certo personagem de forma muito literal, sem compreender a intenção do autor da obra. Afinal, vivemos em um país onde o nível de leitura é muito baixo dentre a população. A tendência é criar ídolos e figuras de exemplo nas mídias audiovisuais. Durante muito tempo a televisão teve papel hegemônico nessa formação de caráter do público, principalmente nas classes mais baixas.


Tomando como exemplo, os dois filmes Tropa de Elite, lançados em 2007 e 2010. Os filmes claramente mostram que um personagem como o Capitão Nascimento não é uma pessoa comum, e que sua cruzada contra o crime organizado e a corrupção do sistema tem consequências negativas tanto para sua saúde quanto sua vida pessoal. Mas nada disso impediu que diversos espectadores tomassem as dores do personagem como uma forma de legitimar seus respectivos discursos de ódio, validando ainda mais o extremismo que reina no país hoje.


Esse é o pior lado possível nessa relação do público com a figura do anti-herói. Aqueles que se deixam levar pelo discurso do personagem sem sequer perceber a intenção original do autor. Aqueles que deixam de perceber que alguém como Nascimento se trata de um anti-herói e passa a usá-lo como exemplo de herói.


Claro que na era atual do cinema e da TV, a tendência é humanizar esses personagens. Não há dúvida de que figuras como Tony Soprano e Walter White são dominados por medos, inseguranças, e mesmo com suas falhas ainda tem a capacidade de empatia e amor, ao menos por suas respectivas famílias. Não são sociopatas absolutos. Ainda há traços de humanidade neles. Mas é importante saber analisar e separar as diferentes características e aspectos que definem esses protagonistas, estando ciente de que são narrativas sobre o colapso moral deles.


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Mais um Tropeço da Disney

(27 de abr. de 2020)




A Disney não é uma megacorporação à toa. O histórico de animação dela fala por si só. O esforço em construir mega-parques no mundo todo mostra seu compromisso com o entretenimento e a diversão. Ao mesmo tempo, é uma companhia que tem certas práticas merecedoras de crítica.


Claro que alguns argumentarão que é um mimimi desnecessário fazer um texto apontando os erros da companhia. Mas o fato dela ter todo esse alcance faz dela uma entidade muito visível, e que obviamente exerce muita influência sobre seus consumidores. E não é passível dessas críticas só porque agrada a muitos com suas obras e produtos. Companhia nenhuma nesse mundo é imune a questionamentos (e muitas, eu diria, são repreensíveis em certos aspectos).


E se pararmos para pensar a fundo, conseguimos perceber que companhia nenhuma atinge um sucesso e um capital desse nível sem praticar certas ações moralmente questionáveis. Até porque essas mesmas ações não são necessariamente condenáveis em um ponto de vista econômico.


Afinal, qual foi a última que a Disney fez para merecer esse texto? Digamos que tem a ver com a reedição de filmes em seu catálogo.


Nesse último mês, a Disney relançou Splash - Uma Sereia em Minha Vida, comédia romântica e filme clássico de 1984 dirigido por Ron Howard, com Tom Hanks, Daryl Hannah e John Candy. O filme foi relançado no app de streaming Disney +.


E essa versão foi reeditada para cortar uma cena na qual aparece (de forma muito breve) o traseiro da sereia vivida por Hannah.


Essa é uma decisão problemática em inúmeros aspectos. Em primeiro lugar, abre um precedente para um estúdio reeditar suas produções sem qualquer input dos autores da obra, e sem sequer consultar o público que abraçou o filme há tantos anos.


Vale lembrar que nada disso é novidade para o estúdio do camundongo. Além das já conhecidas práticas de monopólio de mercado, a Disney tem um péssimo histórico quando se trata de seu acervo de obras. Durante décadas, eles seguram filmes dentro do famoso "cofre", preferindo não relançá-los. O propósito disso? Fazê-lo tão raro a ponto de levantar seu valor e relançá-lo a preços altíssimos. Isso por si só já vai contra os princípios de preservação histórica do cinema. Estúdio nenhum merece ter esse poder.


Se a ideia por trás da remoção da nudez de Hannah é fazer com que o filme não sofra represálias por grupos religiosos fundamentalistas - que enlouquecem com qualquer insinuação minimamente sexual - vale lembrar que o filme quando foi lançado nos anos 1980, ele foi vendido como uma comédia romântica adulta. É para isso que existe um sistema de classificação indicativa. A responsabilidade de ver o filme na íntegra cabe ao espectador responsável.


Mas se esse continua a ser um problema, existe uma segunda solução: lançar as duas versões do filme na plataforma: uma com a nudez, e uma sem. Problema resolvido.


Vale mencionar também o duplo padrão em vigência nesse mesmo estúdio. Lembrando: a Disney é dona da Marvel, que lançou um certo filme chamado Thor Ragnarok há menos de 3 anos, e que contém uma cena com o Hulk nu. Por que um monstrengo verde e masculino pode andar nu e não sofrer qualquer censura? Aí entra o duplo padrão e o machismo em Hollywood a respeito da nudez masculina vs. nudez feminina.


E alguém consultou Hannah na véspera de relançar seu filme? Provavelmente não. Dá para se imaginar que ao menos a dona do corpo exibido nas telonas teria mais direito a opinar quanto a isso. Mas o departamento de marketing é sempre a voz principal nessas questões.


E com a capacidade que existe hoje em gerar soluções via computação gráfica (vide a pós-produção que teve na adaptação de Cats após o lançamento do filme), o que impede estúdios de reescreverem sua história, mexendo em seu acervo? Isso cria um precedente perigoso, e deixa o público no risco de perder esse aspecto histórico do cinema.


Lembrando que isso não invalida a ideia de edições especiais de filmes. Nada mais justo que um diretor queira reeditar um filme e lançar uma versão especial, desde que se tenha ambas as versões disponíveis. E nesse caso, o autor tem o direito de mexer em sua obra caso queira. Mas um estúdio fazer isso de forma unilateral - e por uma questão tão mesquinha quando as nádegas que aparecem por meio segundo de filme - mostra o risco que é um estúdio ter esse poder, e a dificuldade que é para historiadores e curadores manterem vivos a memória e a história da sétima arte.



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Duna

(14 de abr. de 2020)




Duna teve suas primeiras imagens divulgadas na internet.


O filme é uma nova adaptação do livro clássico de Frank Herbert. Quem já leu sabe o que esperar. Um clássico de ficção científica que serviu de inspiração para várias outras obras, incluindo Star Wars.


Em resumo, e para quem não conhece, Duna conta a história de Paul Atreides, um príncipe de uma dinastia real que luta contra os Harkonnens, outra dinastia, pelo controle do planeta Arrakis. Essa história se passa no ano 10191 em outra parte da galáxia. Arrakis, também conhecido como Duna, é um deserto cobiçado por ser a única fonte de Tempero, combustível essencial para as facções que disputam o poder.


Ao mesmo tempo (e sem entrar em SPOILERS), Paul tem uma jornada de herói (no sentido clássico da mitologia estudada por Campbell) e deixa de ser um mero príncipe para se tornar uma figura messiânica para o oprimido povo Fremen, que habita Arrakis. Um dos melhores retratos dessa jornada e de como uma sociedade se reúne em torno de um messias.


E claro, em matéria de visuais, essa história tem de sobra. Algumas das imagens mais icônicas incluem as enormes minhocas de areia que aterrorizam o deserto, e os olhos azuis do povo Fremen, resultado da presença constante do Tempero na corrente sanguínea. Qualquer ilustrador de ficção científica tem Duna como referência.


E não é a primeira vez que Duna é adaptada para o cinema. Uma das primeiras tentativas foi feita na década de 1970, lideradas pelo excêntrico cineasta Alejandro Jodorowsky. A tentativa dele não foi adiante por questões orçamentárias, mas tornou-se lenda dentre os fãs de Duna, e acabou resultando num ótimo documentário, que pondera como seria o cinema se ele tivesse conseguido completar sua obra.


A adaptação foi adiante sem ele, e o filme que o público conhece foi lançado em 1984, com direção de nada menos que David Lynch (Veludo Azul). Kyle Maclachlan, que ficaria eternizado em alguns anos como o agente Cooper em Twin Peaks, foi quem encarnou Paul Atreides no filme, que também inclui um jovem Patrick Stewart (Star Trek) como Gurney Halleck, e até o próprio Sting como Feyd-Rautha Harkonnen. O filme acabou dividindo a crítica e o público. Não foi sucesso de bilheteria, não é visto como uma boa adaptação da obra de Herbert, e também é visto como um dos filmes mais fracos de Lynch. Posteriormente, o próprio Lynch desonrou o filme, citando o fato dos produtores terem editado o corte final do filme sem sua participação.


Mesmo assim, o filme não deixa de ter imagens impactantes, além da excelente trilha sonora.


Além de duas minisséries pra TV feitas entre 2000 e 2010, a obra de Herbert também foi adaptada para alguns jogos de videogame e computador. E mesmo após o falecimento de Herbert, seu filho Brian e o autor Kevin J. Anderson continuaram a expandir essa saga e esse universo com novos romances, novos conflitos e novas dinastias. Mas no cinema mesmo, Duna ficou parado sem qualquer tentativa bem sucedida.


Claro que ainda existem dúvidas se será dessa vez que Duna será bem adaptado para a telona. Pessoalmente, tenho confiança em Denis Villeneuve, diretor dessa nova versão. Villeneuve tem um currículo invejável, Os Suspeitos, o primeiro Sicario, A Chegada, Incêndios, dentre outros. Ele é um dos poucos cineastas da atualidade que tem uma voz autoral firme e consegue trabalhar com filmes blockbuster que vão além do aspecto filme-pipoca e induzem o espectador a pensar com profundidade nos personagens e nas ramificações da trama. Blade Runner 2049, continuação do clássico original e antecipado há décadas, foi obra dele, e foi de uma qualidade indiscutível. Diria até que Villeneuve consegue ser mais consistente e impactante que Christopher Nolan. Digo isso até pela facilidade que ele tem em migrar de um gênero para outro. Essa versatilidade Nolan não possui no mesmo grau.


Por isso tenho fé que Duna dará certo dessa vez, e as imagens ao lado falam por si só. O novo elenco é encabeçado por Timothée Chalamet (Lady Bird), e inclui também Oscar Isaac (Star Wars) e Javier Bardem (Skyfall). A princípio, o filme continua marcado pra estreia ainda este ano (mas pode mudar dependendo da quarentena).


Posted in 0 comentários Postado por Eduardo Jencarelli às 11:52