Este é mais um post comemorando os 50 anos de Jornada nas Estrelas.


Enquanto a série original se aproxima de seu 50º aniversário (8 de setembro), o filme Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato está para completar 20 anos desde seu lançamento original, em novembro de 1996.


O filme foi o oitavo produzido para os cinemas. O filme anterior, Generations, havia dividido fãs e crítica apesar do lucro. Aproveitando o aniversário de 30 anos da franquia, a Paramount insistiu em produzir o filme seguinte o mais breve possível. Com Rick Berman na produção, o mandato era seguir em frente com mais aventuras da Nova Geração de Picard no cinema.


Com os roteiristas Brannon Braga e Ronald D. Moore envolvidos, o próximo passo era encontrar a trama certa. Esse foi um processo bem menos doloroso e complicado que Generations. Eles não tinham mais a obrigação de fazer uma história separada com Kirk e companhia ou ter de inventar um plot tão complicado para juntar ele com Picard.


Logo de cara, ambos os roteiristas queriam lidar com os Borg. Como muitos sabem, os Borg foram a maior revelação na Nova Geração. Os vilões que deram certo. Quando a série foi concebida por Gene Roddenberry, os vilões originais eram os Ferengi, que óbviamente não deram nem um pouco certo devido ao design, deficiencias de roteiro e o fato de que funcionavam muito melhor como alívio cômico. Ninguém levava os Ferengi à sério.


Foi isso que permitiu ao então roteirista Maurice Hurley criar os Borg na série. Ao assimilar todos em sua coletividade, os Borg representam o fim da individualidade. São um vilão completamente impessoal e desprovido de emoções. Eles apenas consomem e conquistam sem jamais hesitar.


Braga e Moore também fizeram questão de incluir viagem no tempo para variar um pouco a trama. Como este elemento havia dado tão certo no quarto filme (o das baleias), foi uma decisão unânime para todos, incluindo o estúdio. Contudo, eles temiam que o fato do Borg não possuir vilões individuais afastaria o público. Eles exigiram a criação de um líder. Isso forçou a equipe a criar a nova personagem da Rainha Borg. Durante um bom tempo, muitos fãs temiam que a presença dela fosse arruinar o filme.


A trama foi bem mais simples. Picard havia sido assimilado pelos Borg na série e até hoje carregava as feridas da experiência. Agora, os Borg estão de volta atacando a Terra. A Frota Estelar monta um exército de naves para impedí-los. Graças a estratégia de Picard, eles conseguem destruir a nave, mas uma pequena esfera escapa e volta no tempo, assimilando a Terra no passado, apagando qualquer traço da Federação. A Enterprise, protegida pelo vortex temporal da esfera, sai imune e consegue viajar para o passado. Contudo, quando destroem a esfera no passado, os Borg conseguem se teletransportar para a nova USS Enterprise E e passam a assimilar a nave e sua tripulação por dentro. Cabe a Picard deter essa ameaça sem cair no gosto da vingança ao melhor estilo Ahab. Enquanto isso, Riker tem a missão de auxiliar o cientista Zefram Cochrane, cuja base foi avariada pelos Borg. Cochrane está para realizar o primeiro vôo warp da humanidade, cujo sucesso atrairá a atenção dos vulcanos criando uma situação de primeiro contato entre a humanidade e sua primeira raça alienígena.


Uma das primeiras versões do roteiro levava Picard e sua tripulação para o Século XIX, onde ele se envolveria em um caso amoroso com uma artista. Em uma reunião com Berman, Braga, Moore, Patrick Stewart e o recém-contratado diretor Jonathan Frakes*, foi decidido que esse rumo não daria certo. Enquanto Picard estava na Terra tendo esse caso, Riker estava na nave lutando contra os Borg. Todos resolveram que seria melhor mudar as posições dos protagonistas. Ao mesmo tempo, Braga e Moore decidiram mudar a ação para o Século XXI, explorando uma época até então pouco vista em Jornada. Já havia sido discutido em todos os seriados que a humanidade quase havia sido extinta numa Terceira Guerra Mundial antes de evoluir para o futuro utópico idealizado por Roddenberry.



*Frakes, além de interpretar Riker na série, já era um diretor experiente tendo dirigido episódios tanto da Nova Geração, mas também de Deep Space Nine e Voyager. Ele já estava cotado para dirigir Primeiro Contato. Um dos outros finalistas para o cargo foi o diretor James L. Conway, também veterano das mesmas séries, e um dos melhores diretores da equipe, tendo dirigido alguns dos melhores episódios de DS9. Frakes ganhou o cargo porque Patrick Stewart tinha poder de voto na escolha final.


Outro trunfo a favor da produção foi a volta de Jerry Goldsmith na composição da trilha sonora. Junto com seu filho Joel Goldsmith, ele não apenas ressuscitou o tema clássico de Jornada, mas também o tema Klingon, além de criar novos temas inesquecíveis para este filme. Considero a trilha de Primeiro Contato uma das melhores de toda a franquia, junto com a do primeiro filme, e é um dos motivos pelo qual Primeiro Contato funciona tão bem.


O filme foi um sucesso estrondoso dentre os fãs, críticos e também o público que não estava acostumado com Jornada. Um dos motivos pra esse sucesso (além da oportunidade de ver os Borg na tela grande com o devido orçamento e escala) foi a inclusão de uma personagem que serviu como ponte para esse público entrar na aventura. Ela se chamava Lily Sloane, com excelente interpretação de Alfre Woodard. Uma das poucas atrizes a conseguirem contracenar com Patrick Stewart no mesmo nível que ele, mesmo nas cenas mais intensas.


Lily é uma sobrevivente do Século XXI. No mundo desolado em que vive, ela busca acreditar na visão de Zefram Cochrane e seu projeto. Quando se depara com elementos do futuro como o andróide Data, o Klingon Worf, ou a própria Enterprise, a reação dela caracteriza a forma como um futuro diversificado e repleto de potencial é capaz de cativar aquele que não tem tanta fé na humanidade. Ao mesmo tempo, ela questiona abertamente a forma como Picard a sua tripulação funcionam. É a personagem que também critica a vivência estéril sem textura do Século XXIV. Ao mesmo tempo que ela funciona como um olhar único ao mundo utópico de Roddenberry, ela também questiona e critica esse mesmo mundo.


Há duas cenas que mostram esse contraste de forma gritante. Uma é a cena em que Picard abre uma janela da nave para desarmá-la e ganhar sua confiança. Ela parece uma garota inocente enquanto Picard mostra para ela de onde ele vem e que futuro a espera. A outra cena é a em que Lily questiona a decisão de Picard em lutar até a morte contra os Borg e expõe sua hipocrisia como capitão e ser "sensibilizado" do futuro ao compará-lo diretamente ao personagem fictício de Moby Dick.


Ao mesmo tempo, cenas em que Picard explica a Lily que a humanidade não usa mais dinheiro no futuro explica a utopia de Roddenberry ao público que não conhece sua obra e também serve como alívio cômico, já que Lily percebe que Picard não recebe um tostão por ser um atarefado capitão com 30 mil responsabilidades.


Zefram Cochrane, vivido pelo veterano James Cromwell, também é um caso interessante de contrastes. O personagem já havia aparecido na série original, interpretado por outro ator, e sua conduta como tal mostrava como sua visão foi fundamental no trajeto evolucionário da humanidade. Ele já mostrava uma sensibilidade e postura madura. Braga e Moore descontroem esse personagem no filme, mostrando um velho beberrão completamente deprimido, sem interesse em grandes jornadas ou responsabilidades, com mais interesse em dinheiro e mulheres do que fama ou grandes propósitos sócio-políticos. A forma como engenheiros que nem Geordi LaForge veneram o personagem bate direto com o desconforto que ele sente ao ser tratado assim.


A questão do Primeiro Contato é a base de Jornada nas Estrelas. Quando a humanidade mostrou-se capaz de viajar além da Terra, e descobriu como não estavam sozinhos no universo, apenas digamos que isso mudou completamente as prioridades de todas as sociedades existentes em nosso planeta. Como disse Deanna Troi, pobreza, doença e guerras deixaram de ser predominantes nos anos seguintes, porque a humanidade havia se unido num grau jamais concebido por qualquer pensador ou teórico. A cena final do filme, quando Cochrane assume a responsabilidade de dar boas vindas aos primeiros vulcanos* mostra a importância dessa evolução.


*Não há homenagem maior aos 30 anos de Jornada do que colocar os vulcanos como a primeira sociedade a estabelecer contato com a humanidade. Se Spock foi o esforço de Roddenberry a incluir um elenco interestelar, além do multicultural, colocar os vulcanos como a primeira raça foi a escolha natural dos produtores nesse capítulo. A devida homenagem aos fãs e a própria história de Jornada.


Do outro lado do filme, temos a questão dos Borg e o envolvimento de Data na trama. A introdução da Rainha Borg foi um assunto controverso até o lançamento. Quando Alice Krige* mostrou do que a personagem era capaz, boa parte dessas dúvidas e anseios foram dissipadas. Misturar sex appeal com perigo não é uma mistura nova em hollywood, mas foi muito bem aplicada nessa personagem. Ela deseja controlar Data para conseguir os códigos de segurança da Enterprise, a fim de acessar seu computador central. Mas para atingir isso, ela é capaz de estimular a humanidade dentro dele. Ao contrário da jornada repleta de clichês que havia sido o chip de emoção em Generations, a jornada de Data neste filme é mais um acerto dentre os demais. Você chega a acreditar que Data possa ser corrompido, porque quem viu o seriado durante todos os 178 episódios sabe o quanto ele deseja tornar-se humano. Ela consegue deixá-lo temporariamente num estado de tentação e conflito interno.


*A Rainha Borg fez tanto sucesso que foi reutilizada em Jornada nas Estrelas: Voyager como vilã recorrente. Susanna Thompson interpretou a personagem na maioria dos episódios. Alice Krige reprisou o papel no episódio final, pois Thompson tinha outro projeto na época.


Como Worf já era um dos personagens principais em DS9 quando o filme foi lançado, a trama teve de justificar sua vinda para a Enterprise. Graças a isso, vimos pela única vez nas telas de cinema a presença da USS Defiant, nave de Sisko, envolvida na batalha contra o cubo Borg. Worf comandou a nave em batalha, só que ela foi danificada* pelos Borg, e os sobreviventes foram transportados para a Enterprise. Como nunca tivemos um filme baseado exclusivamente em DS9, este foi o mais próximo possível.


*Ronald D. Moore era roteirista em DS9, assim como Braga era de Voyager. Quando lera o roteiro, o produtor de DS9, Ira Steven Behr, deu um ataque ao ver que a Defiant havia sido destruída na batalha. Eles prontamente tiveram de alterar o roteiro, mencionando a sobrevivência da nave, e incluindo. Ironicamente, a Defiant foi destruída na última temporada de DS9, dois anos depois.


Outro elemento de Star Trek que foi incorporado no filme foi a presença do Doutor Holográfico, interpretado pelo sempre excelente Robert Picardo*. Devido a sua origem, ele não era uma função exclusiva de Voyager, e podia ser aproveitado desta forma. Isso rendeu ao menos uma cena hilária com a Dra. Crusher.


*Picardo também apareceu em DS9 na mesma época, interpretando o médico original que serviu de base para o holograma.


Um fato menos conhecido sobre o filme é que ele teve um personagem que numa versão anterior do roteiro era para ser abertamente gay. O Tenente Hawk, vivido na época pelo então jovem e desconhecido Neal McDonough, era para ser o primeiro personagem permanente no elenco representando a causa LGBT*. Contudo, esse aspecto foi omitido nas versões posteriores, e o personagem acabou sendo assimilado pelos Borg e morto por Worf. McDonough logo deslanchou e tornou-se famoso após passar por produções aclamadas como a minissérie Band of Brothers.


*Com Bryan Fuller na produção, é quase garantido que teremos um personagem LGBT no elenco de Star Trek: Discovery.


A morte de Hawk entra para o quadro dos camisas vermelhas. Quem lembra da série original, com certeza irá lembrar da enorme quantidade de tripulantes que morreram em missões. Kirk mal lembrava dos oficiais e tripulantes mortos no fim de suas missões. E a maioria usava uniforme vermelho. Isso se tornou um clichê recorrente na série original, e em grau menor nas produções posteriores.


Já a questão de assimilação representa um dos aspectos mais perturbadores e controversos do filme. Picard ordena a Worf e os demais tripulantes que matem qualquer tripulante que tenha sido assimilado pelos Borg. De certa forma, estariam fazendo um favor a eles, ao não condená-los a uma existência traumática como drones dos Borg. Mas não deixa de ser uma forma de assassinato, condenável principalmente levando em conta os ideais que Picard e a raça humana prezavam no futuro.


A obsessão de Picard é sem dúvida a força motriz do filme. Alguns fãs questionaram esse rumo, relembrando que Picard havia voltado a ser o capitão de sempre após os eventos de sua assimilação na série. Eu argumentaria que quando o passado é doloroso, ele sempre será capaz de fazer com que você retorne a estimular os velhos instintos de auto-proteção em tempos de crise. Isso leva Picard a bater boca com oficiais que ele considera amigos próximos há anos. A cena em que ele ordena que Worf saia da ponte seria inconcebível no seriado. O nível de raiva é extremo. Se Roddenberry argumentava que humanos jamais teriam conflitos entre si no futuro, Braga e Moore conseguem habilmente extrair esse drama e conflito, criando uma situação na qual nenhum personagem consegue fugir da tensão e do conflito. Com os Borg assimilando tudo ao seu redor, não tinha outra possibilidade. Quando Worf sugere explodir a nave, era apenas a faísca que faltava para Picard literalmente explodir perante seus oficiais.


Em matéria de design, a nova Enterprise é um acerto. Por mais que a Enterprise D fosse perfeita pro seriado, seu estilo resort era claramente destinado pra estética televisiva. A nova Enterprise é mais concebida pra estética cinematográfica em todos os aspectos. Uma das melhores sequências do filme sem dúvida é a de Picard, Worf e Hawk tentando desativar o disco defletor na parte de fora da nave. Filmar uma sequência em que nossos heróis caminham em pleno espaço sideral já é um desafio em si. Fazê-lo em enfrentamento com os Borg, desprovidos de atmosfera e gravidade é muito mais complicado. Junto com a trilha de Goldsmith, Frakes e o editor John Wheeler compõem uma cena verdadeiramente sufocante. O design dos Borg no filme já eram apavorantes por si só. Ver eles caminhando em direção a Picard em passos lentos é pura agonia. Um dos poucos momentos de suspense em Jornada que realmente funcionam num nível sensorial. É também o filme de Jornada mais próximo de ser um filme de terror, tanto psicológico quanto físico.


Outro ponto positivo é que o filme jamais se prende muito nas logísticas de viagem no tempo. A tripulação não vê outra forma senão contar a verdade para Cochrane, a fim de proteger a linha temporal que eles conhecem. E Lily foi literalmente jogada na toca dos leões quando foi transportada para uma nave repleta de unidades Borg assimilando cada parte da nave em tempo real.


O bom do filme é que mesmo tendo uma trama com ritmo acelerado, ele encontra momentos que permitem aos personagens se expressarem. A cena em que Data e Picard encostam as mãos no míssil que será a nave do Primeiro Contato é um dos melhores exemplos. Ela mostra como Picard reverencia essa parte do passado, e como a percepção robótica de Data extrai uma resposta completamente diferente. Uma situação capaz de ser cômica sem recorrer a agentes externos.


Fala se muito que os filmes de Jornada com o elenco da Nova Geração foram uma decepção, incapazes de mostrar o espírito de aventura que os filmes originais tinham. Eu vejo Primeiro Contato como o oposto dessa crítica. O filme representa os melhores aspectos de Jornada nas Estrelas, consegue ser tenso, divertido, dramático e satisfatório. O elenco nunca esteve tão a vontade, a direção nunca foi tão dinâmica e o roteiro foi muito bem amarrado. O filme consegue representar aspectos diferentes da franquia e incorporá-los numa obra 100% fiel aos parâmetros de Roddenberry, enquanto que ao mesmo tempo os desafiando. Pessoalmente, nem os filmes de J.J. Abrams conseguiram atingir esse equilíbrio da mesma forma que este filme o fez. Não é a toa que Primeiro Contato teve a melhor bilheteria da franquia desde Jornada IV, dez anos antes.


E claro que isso colocou Rick Berman numa posição invejável como o produtor mais bem sucedido de toda a franquia. Sete anos produzindo a Nova Geração foram apenas o começo. Agora, ele tinha DS9 e Voyager em suas mãos, além do mandato da Paramount em seguir em frente com novos filmes com Picard e cia. E a resolução final deste filme passou a inspirar Rick Berman e Brannon Braga, de forma que o idealismo e a iniciativa de Zefram Cochrane tornariam-se o ponto de partida para o desenvolvimento da mais nova série, Star Trek: Enterprise.


No próximo post, relembraremos Jornada nas Estrelas: a Insurreição. Enquanto isso, fique com algumas cenas de Primeiro Contato, incluindo a fantástica cena do primeiro contato em si, logo abaixo:






Posted in 0 comentários Postado por Eduardo Jencarelli às 12:46  



O maior desafio em qualquer franquia é encontrar um equilíbrio em satisfazer seus fãs sem levá-los a exaustão.


O problema é que em Hollywood, a diretriz é explorar o potencial de suas obras até que não rendam mais lucro. Uma mentalidade indiscutívelmente capitalista, e que sempre cria resultados divisórios. Quantos filmes ou seriados foram além da conta e acabaram decepcionando espectadores?


Jornada nas Estrelas: Voyager foi uma demanda da Paramount. O estúdio resolveu entrar com tudo no mercado televisivo, e para isso criaram uma nova rede de TV, a UPN*, competindo diretamente com a redes principais norte-americanas. E foi decidido que o carro-chefe do novo canal seria uma nova série de Jornada nas Estrelas.


*Não era a primeira vez que a Paramount tentava criar uma rede televisiva. Já haviam tentado isso na década de 1970, e na época o carro-chefe seria a abortada série Jornada nas Estrelas: Phase II, cujo piloto acabou virando o primeiro filme no cinema.


Deep Space Nine, assim como A Nova Geração, haviam sido produzidos para o mercado televisivo conhecido como syndication, o mesmo em que se passam reprises, longe dos horários nobres e livres das demandas e exigências de grandes redes. Gene Roddenberry havia lutado ferozmente com os executivos da NBC durante a série original, e foi esse um dos fatores que motivou a mudança para syndication.


Mesmo com a presença de DS9, a Paramount insistia na presença contínua de uma série envolvendo uma nave espacial viajando pelos confins do espaço. A idéia era pegar e ampliar o público que assistiu a sete temporadas da Nova Geração e já estava acostumado ao formato. Foi então que o estúdio colocou o produtor/showrunner Rick Berman como encarregado do projeto.


Logo de cara, Berman colocou Michael Piller e Jeri Taylor, os produtores da Nova Geração, para criar uma nova bíblia, selecionar roteiristas e elaborar a trama e os personagens do novo seriado.


Ninguém ali queria repetir A Nova Geração. Para diferenciar o seriado dos anteriores, tomou-se a decisão de criar uma trama de longo prazo. Assim, se estabeleceu a USS Voyager, cuja missão era perseguir e capturar um grupo de renegados Maquis (ex-membros da frota estelar, introduzidos na Nova Geração e em DS9) que haviam iniciado ataques terroristas contra Cardassianos. Contudo, os dois grupos entram numa distorção espacial, e são jogados do outro lado da galáxia. Eventos nesse novo quadrante fazem com que a Capitã Janeway tome a decisão de destruir a estação espacial responsável por colocá-los ali, a fim de proteger uma sociedade alienígena indefesa. Isso deixa ambas as tripulações presas, e voltar para a Terra levaria 70 anos em velocidade máxima. Como a nave dos Maquis foi destruída, sua tripulação liderada por Chakotay é forçada a integrar a equipe de Janeway e trabalharem juntos para achar uma forma de encurtar esta longa viagem.


Parece a trama de Perdidos no Espaço. Contudo, sendo Star Trek, a premissa era de que os autores tratariam esta situação com o devido realismo e seriedade. E honestamente tentaram sempre que possível. Mas sendo uma série de rede aberta, eles tinham severas limitações no que podiam fazer.


Jeri Taylor havia sido uma das poucas roteiristas experientes que Michael Piller contratara durante A Nova Geração (tanto que foi ela a responsável pelas duas últimas temporadas do seriado enquanto Piller focava em DS9). Eram poucos os roteiristas capazes de se adaptar às regras do universo criado por Roddenberry. Tanto Berman quanto Piller procuravam preservar os parâmetros desse universo, principalmente no controverso quesito ausência de conflito entre seres humanos no Século XXIV, que dividia muitos escritores e dramaturgos. Isso afugentou muitos roteiristas, e para conseguir cumprir a cota de produção na Nova Geração, Piller recorreu a uma iniciativa ousada ao aceitar submissões de fãs e escritores não-profissionais. A paixão por Jornada era tanta que Piller estava disposto a ler as idéias que essas pessoas poderiam ter. Desde que qualquer autor assinasse um contrato autorizando o uso de sua idéia, ela poderia ser lida e até aceita. Foi assim que Piller descobriu novos promissores roteiristas como Ronald D. Moore, René Echevarria, e muitos outros.


Piller manteve essa política durante as duas primeiras temporadas de Voyager. Infelizmente, ele acabou deixando a série no final de sua segunda temporada. Após sete anos responsável por este universo, Piller se via na necessidade de explorar novos rumos criativos. A responsabilidade de preservar as regras de Roddenberry o havia deixado desgastado. Jeri Taylor manteve o controle criativo nas duas temporadas seguintes até eventualmente se aposentar aos 60 anos. Quem assumiu Voyager à partir da quinta temporada foi Brannon Braga.


Braga já tinha anos de experiência, tendo escrito alguns dos melhores episódios da Nova Geração, além de dois dos filmes: Generations e Primeiro Contato. Enquanto Moore focava em mitologia, Braga focava em aventura e conceitos de ficção científica que muitas vezes beiravam o surreal, prestando homenagens à clássicos de David Lynch, além de ser um hábil escritor de personagens com bons diálogos. Braga sempre dividiu fãs devido a certos episódios controversos de ambas as séries, e também por estar envolvido com a morte de Kirk. Braga também alienou fãs ao dizer numa entrevista que nunca havia assistido a um episódio da série original (que foi um fator que motivou Roddenberry a contratá-lo na Nova Geração). Por isso, nem todos aceitaram sua nova posição como showrunner de Jornada. Pessoalmente, acho que dentre os roteiristas de Voyager, não havia ninguém mais qualificado ou capaz de assumir essa responsabilidade. E por mais que não tenha crescido como fã, ele abraçou a responsabilidade e, com o passar dos anos, assistiu finalmente aos episódios da série original.


Quanto aos personagens de Voyager, é fato que eles não tinham a mesma personalidade ou originalidade que seus antecessores na franquia. Não que isso faça deles péssimos personagens. Muito pelo contrário. A Capitã Janeway, interpretada por Kate Mulgrew*, foi um acerto. Sua presença e atitude mostraram que havia espaço para uma capitã feminina, que tivesse a devida autoridade, iniciativa e ao mesmo tempo sensibilidade que alguém como Picard jamais teria.


*Mulgrew não foi a escolha original para interpretar a personagem. Originalmente, os produtores queriam a aclamada atriz Geneviève Bujold para o papel. Ela foi escalada e começou a filmar o episódio-piloto. Contudo, Berman logo viu que, por mais competente que fosse, ela não tinha o fôlego ou disposição de se adaptar ao cronograma televisivo.


O maior potencial desperdiçado em Voyager foi o personagem Chakotay (Robert Beltran). A questão do conflito presente entre os oficiais Maquis e os oficiais da Frota acabou sendo deixada de lado durante a maior parte da série*. Chakotay era para ser um comandante capaz de desafiar Janeway, mas acabou se tornando um oficial mais fiel aos protocolos da frota do que muitos outros. Seu passado indígena também foi pouquíssimo explorado, e nos raros casos em que foi, a execução foi pavorosa recorrendo a todos os clichês de representação indígena em hollywood.


*Ironicamente, este conflito e tensão com os Maquis acabou rendendo alguns excelentes episódios de DS9.


Outros personagens funcionaram melhor. Tim Russ fez um bom trabalho como o chefe de segurança vulcano Tuvok. Roxann Dawson fez um belo trabalho como a engenheira meio-Klingon/meio-humana B'Elanna Torres e Robert Picardo fez um excelente trabalho como o Doutor holográfico.


Outros não deram tão certo. Ethan Phillips fez um trabalho adequado com um péssimo personagem que era o alienígena Neelix, e Jennifer Lien fez um fraco trabalho como a personagem Kes. Já Garrett Wang fez um trabalho sofrível como o Alferes Harry Kim.


Robert Duncan McNeill é um caso interessante. Ele havia participado de um episódio da Nova Geração, The First Duty, como um cadete que assumira a culpa por um grave acidente que ocorrera na academia. Inclusive o personagem, Nick Locano, era visto como um grande líder por personagens como Wesley Crusher. Mas quando escalaram McNeill para Voyager, alguém decidiu criar um personagem novo, o Tenente Tom Paris, mas dando exatamente a mesma história que Locarno tinha, incluindo todo o passado do acidente e a perda da carreira. Quando se muda nomes de personagens assim, geralmente é para evitar que o estúdio pague royalties ao roteirista que criara o personagem original. Não dá para confirmar se foi este o motivo, mas é a impressão que fica. De qualquer forma, McNeill faz um bom trabalho com um personagem que poderia ter sido mais desenvolvido.


Assim como muitos atores da Nova Geração, tanto McNeill quanto Dawson adquiriram uma segunda carreira como diretores de episódios dos seriados.


A série estreou em janeiro de 1995, durante a terceira temporada de DS9. A idéia ao colocar Voyager nos confins da galáxia era explorar novas formas de narrativa e novas aventuras que jamais teriam sido possíveis nas séries anteriores. Estando longe de casa, eles não tinham como ir a um porto para reparos da nave. Eles tinham de conservar seus recursos e dependerem de outras sociedades para ajudá-los em sua jornada. Contudo, não foi bem o que aconteceu nessas sete temporadas. E em muitos casos, eles fizeram cópias mal-feitas de elementos préviamente estabelecidos na franquia. O maior exemplo disso é a raça Kazon. Ninguém negaria que estes foram uma cópia muito mal-feita dos Klingons.


Visualmente, a série começou timidamente, mas com o advento dos efeitos visuais, os produtores começaram a explorar mais possibilidades. Voyager foi a primeira nave a ter a capacidade de aterrisar completamente num planeta. O avanço na computação gráfica permitiu excelentes efeitos nas temporadas posteriores, incluindo batalhas contra os Borg e inclusive uma das melhores cenas da série em seu 100º episódio*, no qual Harry Kim tenta reverter um desastre violando leis temporais, ao impedir que a tripulação cometa um erro que faz com que a nave caia num planeta gelado.


*O episódio, além de ser dirigido por LeVar Burton teve também a participação do ator, reprisando o papel de Geordi LaForge.


A série nunca teve o nível de audiência da Nova Geração. Eventualmente, a Paramount passou a se preocupar e foi atrás de medidas para remediar isso. Foi assim que criaram uma nova personagem durante a quarta temporada. A personagem, Seven of Nine, vivida pela atriz Jeri Ryan, era uma humana que havia sido assimilada pelos Borg. Janeway e a tripulação conseguiram removê-la da coletiva Borg e passaram a reestimular sua humanidade.


A vinda de Ryan custou a presença de Lien na série. A personagem Kes foi rapidamente eliminada do elenco*. Este foi uma questão controversa. Kes vinha se tornando uma personagem mais intrigante, principalmente após a terceira temporada, com mais presença e maturidade. E Lien vinha melhorando aos poucos. Dizem que Mulgrew aceitou mal a mudança súbita de atrizes no meio do caminho, e sempre circularam boatos de que Mulgrew não se dava bem com Ryan em decorrência disso.


*Supostamente, quem era para ter sido eliminado do elenco era Wang. Inclusive, ele não se dava bem com Rick Berman. Só que Wang saiu na capa de uma revista como um dos galãs mais sexys de 1997, o que supostamente teria ajudado a mantê-lo no seriado.


Um fator que entrou em Voyager com a vinda de Ryan foi o apelo sexual. Por mais que passasse mensagens progressistas em sua narrativa, Star Trek sempre teve uma relação tímida com a sexualidade até por ser um produto de censura livre, exibido fora do horário nobre. Haviam fãs que tinham fantasias com personagens como Deanna Troi ou Jadzia Dax. Na busca pelo público adolescente, os produtores colocaram Seven of Nine em um uniforme que realçava suas curvas, estimulando a imaginação de muitos. Numa série que promovia igualdade entre os sexos tendo uma capitã feminina, além de várias outras personagens femininas em posições de destaque, isto foi visto como um retrocesso dentre muitos fãs. Outro revés foi que a inclusão desta personagem acabou por reduzir a presença do restante do elenco.


Em defesa da personagem, ela foi muito bem desenvolvida nos roteiros e Ryan deu uma bela performance. Ela se tornou aquela que analisa a humanidade por outro ângulo, seguindo o mesmo caminho que Spock e Data.


No outro lado da moeda, não há como negar o apelo que os Borg tem no universo de Jornada. Eles renderam alguns dos episódios mais aclamados da Nova Geração, além do sucesso de Primeiro Contato nos cinemas. Para Braga, foi natural levar Voyager nessa direção, até porque já era estabelecido na mitologia da franquia que os Borg dominavam aquele canto da galáxia e era inevitável que a tripulação cruzaria com eles no caminho pra casa.


Mas também pode se admitir que os Borg foram usados além da conta durante a série, perdendo boa parte da originalidade e do fator surpresa que eles tinham originalmente. Quando Voyager chegou ao fim em 2001, eles já não impressionavam mais como vilões.


Voyager contou vários tipos de histórias. Um de seus fatores positivos foi o uso do Doutor, levantando a questão de que se hologramas tem os mesmos direitos que seres humanos comuns. Assim como fizeram com Data e os direitos de andróides na Nova Geração, Voyager levantou essa questão. Se você é programado, o quanto você é sentiente? Ao decorrer destes sete anos, vimos o Doutor ir muito além de seus parâmetros originais, vivendo experiências inusitadas.


Voyager foi o primeiro trabalho para vários jovens roteiristas. Dentre eles, Bryan Fuller começou sua carreira ali. Hoje, ele é um dos showrunners/produtores mais aclamados responsável por séries como Hannibal e Pushing Daisies. Inclusive, Fuller é atualmente o responsávelo pelo desenvolvimento da nova série, Star Trek Discovery, que deverá estrear em 2017.


Após o fim de DS9 em 1999, foi decidido que não teria outra série no ar até que Voyager fosse devidamente concluída nos dois anos seguintes que ainda tinha. Certamente tanto Berman quanto a Paramount foram percebendo o risco de sobrecarregar fãs com material, levando a franquia a uma inevitável fadiga. Durante a última temporada de Voyager, Braga reduziu seu envolvimento com a série para focar no desenvolvimento de Star Trek: Enterprise, que iria ao ar logo em seguida. Kenneth Biller, o roteirista mais experiente do seriado, assumiu a última temporada como produtor, dando um foco maior na relação entre os personagens.


No fim das contas, não posso nem culpar muito Voyager por suas falhas. Mesmo a série original, A Nova Geração e DS9 tiveram vários episódios de péssima qualidade, detestados por fãs de forma unânime. Voyager teve apenas um nesse patamar: Threshold, exibido na segunda temporada, que lida com uma situação na qual Paris ultrapassa Warp 10 com uma nave auxiliar e acaba se transformando num mutante. O maior crime desse episódio é que o Doutor consegue reverter a mutação de Paris. Se fosse assim, porque não colocavam a nave em Warp 10 até chegar em casa para então reverter a mutação de todos posteriormente? Nada nesse episódio funciona, e o próprio Braga é um de seus maiores críticos.


O problema principal de Voyager foi desperdiçar seu potencial e não ir além. Todas as histórias contadas nesta série já haviam sido produzidas nas encarnações anteriores de alguma forma ou outra. Em 1987, dava pra justificar isso. Em 1995 e além, já não dava, ainda mais com DS9 ao seu lado tomando rumos narrativos ousados como colocar a Federação em guerra durante várias temporadas. Sempre que Voyager tentava uma idéia ousada, os roteiristas eram obrigados a voltar atrás no fim do episódio. A UPN fazia questão de exibir episódios na ordem que bem desejassem. Isso desencorajava os produtores a criarem arcos narrativos à longo prazo. Em 1997, Brannon Braga e Joe Menosky haviam concebido o conceito do "ano do inferno", no qual Voyager passaria um ano inteiro sendo caçada por uma raça alienígena violenta e sofrendo danos drásticos, e diversas mortes de tripulantes, sem chance de reparos ou descanso. Seria uma versão ultraviolenta de Battlestar Galactica. Essa era a idéia original da quarta temporada, e acabou sendo reduzida a um episódio de duas partes, e toda a narrativa é revertida no final quando uma intervenção temporal anula todo a jornada.


De qualquer forma, a série teve vários bons episódios ao decorrer das temporadas. Marina Sirtis e Dwight Schultz, da Nova Geração, reprisaram os papéis de Deanna Troi e Reg Barclay e exerceram um papel na tentativa de estabelecer contato direto com Voyager nas últimas temporadas.


O episódio final mostra eles chegando em casa, mas recorre a uma história de viagem no tempo muito batida para atingir esse objetivo. A forma como a Janeway do futuro resolve alterar sem escrúpulos os eventos para que sua tripulação chegue em casa um pouco mais cedo não é muito consistente com a personagem estabelecida. Mas consistência também sempre foi um problema recorrente na narrativa de Voyager.


O crime narrativo maior foi este final não ter abordado a forma como esses personagens se readaptariam em sua volta à Terra. Como a Seven of Nine se encaixaria no coração da Federação? Qual seria o fruto da evolução do Doutor (que ainda não tinha nome próprio após sete anos)? Tinha também a questão dos Maquis. Os membros de Voyager eram os únicos restantes do grupo, até pelo fato do restante ter sido dizimado pelos Dominion em DS9 anos antes. Isso até rendeu um bom episódio de Voyager chamado Extreme Risk, mas a série não examinou essa questão além disso. Foi outra situação de potencial desperdiçado.


Com o fim de Voyager em 2001, Berman já estava ocupado produzindo o último filme da Nova Geração e preparando para lançar Jornada nas Estrelas: Enterprise com Braga. E desta vez, eles estavam determinados a sacudir mais a franquia pelo bem deles e também dos fãs.


Fique com algumas cenas da série, logo abaixo, incluindo a sequência de abertura cuja trilha foi uma excelente composição de Jerry Goldsmith:







Posted in 0 comentários Postado por Eduardo Jencarelli às 12:56  

Estreias da Semana - 25/08/2016

(25 de ago de 2016)



Confira em destaque as estreias desta quinta-feira, a seguir:



Pets - A Vida Secreta dos Bichos

Max é um cachorro que mora em um apartamento de Manhattan. Quando sua querida dona traz para casa um novo cão chamado Duke, Max não gosta nada, já que seus privilégios parecem ter acabado. Mas logo eles vão ter que pôr as divergências de lado quando um incidente coloca os dois na mira da carrocinha. Enquanto tentam fugir, os animais da vizinhança se reúnem para o resgate e uma gangue de bichos que moram nos esgotos se mete no caminho da dupla.

Animação / Comédia / Aventura - (The Secret Life of Pets) EUA / Japão, 2016.

Direção: Yarrow Cheney e Chris Renaud.
Roteiro: Cinco Paul, Ken Daurio e Brian Lynch.
Elenco: Louis C.K., Eric Stonestreet, Kevin Hart, Jenny Slate, Ellie Kemper, Albert Brooks, Lake Bell, Dana Carvey, Hannibal Buress, Bobby Moynihan, Chris Renaud, Steve Coogan, Kiely Renaud, Bob Bergen, Jason Marsden, Jim Cummings, Tara Strong, Jim Ward, Michael Beattie, Sandra Echeverria, Jaime Camil, dentre outros.

Duração: 87 min.
Classificação: Livre.



Nerve - Um Jogo Sem Regras

A tímida Vee DeMarco é uma garota comum, prestes a sair do ensino médio e sonhando em ir para a faculdade. Após uma discussão com sua até então amiga Sydney, ela resolve provar que tem atitude e decide se inscrever no Nerve, um jogo online onde as pessoas precisam executar tarefas ordenadas pelos próprios participantes. O Nerve é dividido entre observadores e jogadores, sendo que os primeiros decidem as tarefas a serem realizadas e os demais as executam (ou não). Logo em seu primeiro desafio, Vee conhece Ian, um jogador de passado obscuro. Juntos, eles logo caem nas graças dos observadores, que passam a enviar cada vez mais tarefas para o casal em potencial.

Suspense / Aventura / Policial / Mistério - (Nerve) EUA, 2016.

Direção: Ariel Schulman e Henry Joost.
Roteiro: Jessica Sharzer.
Elenco: Emma Roberts, Dave Franco, Emily Meade, Miles Heizer, Kimiko Glenn, Marc John Jefferies, Machine Gun Kelly, Ed Squires, Brian 'Sene' Marc, Juliette Lewis, dentre outros.

Duração: 96 min.
Classificação: 14 anos.



Café Society

Anos 1930. Bobby é um jovem aspirante a escritor, que resolve de mudar de Nova York para Los Angeles. Lá, ele deseja ingressar na indústria cinematográfica com a ajuda de seu tio Phil, um produtor que conhece a elite da sétima arte. Após um bom período de espera, Bobby consegue o emprego de entregador de mensagens dentro da empresa de Phil. Enquanto aguarda uma oportunidade melhor, ele se envolve com Vonnie, a secretária particular de seu tio. Só que ela, por mais que goste de Bobby, mantém um relacionamento secreto.

Comédia / Drama / Romance - EUA, 2016.

Direção: Woody Allen.
Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carell, Sheryl Lee, Todd Weeks, Paul Schackman, Jodi Carlisle, Richard Portnow, Jeannie Berlin, Ken Stott, Sari Lennick, Corey Stoll, Stephen Kunken, Laurel Griggs, Don Stark, Parker Posey, Paul Schneider, Anthony DiMaria, Gregg Binkley, Anna Camp, Blake Lively, dentre outros.

Duração: 96 min.
Classificação: 12 anos.



Lolo: O Filho da Minha Namorada

Violette é produtora de moda, acostumada aos meios sofisticados de Paris. Como está há muito tempo sem um namorado, ela aceita se encontrar com Jean-René, um técnico em informática pouco culto, acostumado ao interior do país. Para a surpresa dos dois, o relacionamento funciona, mas o filho mimado de Violette, Lolo, pretende infernizar a vida do intruso até sua mãe terminar o namoro.

Comédia - (Lolo) França, 2015.

Direção: Julie Delpy.
Roteiro: Julie Delpy e Eugénie Grandval.
Elenco: Julie Delpy, Dany Boon, Vincent Lacoste, Karin Viard, Antoine Longuine, Christophe Vandevelde, Elise Lamicol, Christophe Canard, Nicolas Wanczycki, Rudy Milstein, dentre outros.

Duração: 99 min.
Classificação: 12 anos.



Águas Rasas

Nancy é uma jovem médica que está tendo de lidar com a recente perda da mãe. Ela vai surfar em uma paradisíaca praia isolada, onde acaba sendo atacada por um enorme tubarão. Desesperada e ferida, ela consegue se proteger temporariamente em um recife de corais, mas precisa encontrar logo uma maneira de sair da água.

Drama / Horror / Suspense - (The Shallows) EUA, 2016.

Direção: Jaume Collet-Serra.
Roteiro: Anthony Jaswinski.
Elenco: Blake Lively, Óscar Jaenada, Brett Cullen, Sedona Legge, Ava Dean, Chelsea Moody, dentre outros.

Duração: 86 min.
Classificação: 16 anos.



Posted in 0 comentários Postado por Eduardo Jencarelli às 12:36  



É fato que quando filmes são lançados no Brasil, sempre há alguém pronto pra bagunçar a tradução do título e confundir completamente o público.


Jornada nas Estrelas: A Nova Geração foi a tradução que usaram para o filme Star Trek: Generations. Mais tarde, o filme foi rebatizado aqui como Jornada nas Estrelas: Generations. Qual teria sido o problema em usar o termo Gerações afinal? Difícil de pronunciar. Péssimo para marketing? Vai entender. Enfim....


No período após a morte de Gene Roddenberry, a Paramount passava por longas discussões e argumentos a respeito do futuro da Nova Geração na TV. A série havia se tornado um sucesso indiscutível, mas a questão de quanto tempo isso permaneceria viável não estava resolvida.


A questão foi resolvida em fevereiro de 1993, quando Rick Berman, produtor/showrunner do seriado, convocou os roteiristas Brannon Braga e Ronald D. Moore para seu escritório. Ele falou que havia passado meses discutindo com o estúdio e que havia sido apontado para produzir os filmes da Nova Geração no cinema, e que eles haviam sido escolhidos para roteirizar o projeto. E com isso, a série teria uma sétima e última temporada para ser concluída enquanto trabalhavam no filme.


A Paramount tinha delineado um plano específico para este filme. Ele não seria apenas o primeiro filme com a tripulação de Jean-Luc Picard na telona. Ele seria um filme que passaria da geração antiga para a nova. É claro que isso trouxe consigo a primeira grande complicação narrativa. A Nova Geração se passava quase 80 anos após a série original. Como fazer com que James T. Kirk tivesse um encontro cara-a-cara com Picard?


A trama é tudo, menos simples. Após os eventos do sexto filme, Kirk e a tripulação se aposentam até que são chamados para participar da cerimônia de lançamento de uma nova USS Enterprise, comandada por uma nova tripulação. Kirk, junto com Scotty e Chekov, participam do evento. Tudo corre bem até que são chamados para resgatar uma nave com refugiados presos numa barreira intergalática. O evento corre como planejado, só que Kirk que foi ajudar o resgate ativando um raio defletor é sugado para fora da nave quando um rombo é aberto. Kirk é dado como morto.


A trama salta 78 anos para o futuro, após os eventos da sétima temporada. Durante a cerimônia de promoção para Worf, a Enterprise de Picard é chamada para uma estação espacial que foi atacada por Romulanos. Eles estavam atrás de um componente químico capaz de implodir uma estrela. Lá, eles encontram o Dr. Soran (Malcolm McDowell), responsável pelo projeto. Ele consegue implodir a estrela local. No processo, Geordi LaForge é nocauteado por Soran, e ambos são resgatados por uma nave Klingon comandada pelas irmãs Lursa e B'Etor. Picard conversa com Guinan (Whoopi Goldberg) e descobre que ela e Soran são membros da mesma raça que havia sido dizimada pelos Borg anos antes, e que a barreira que prendera a nave era um portal para um Nexus temporal onde qualquer pessoa era capaz de reviver sua vida, corrigindo os erros do passado.


Isso leva a Picard confrontar Soran no planeta Veridian III. Soran revela que irá implodir a estrela do sistema a fim de mudar o curso da barreira para que possa reentrar nela, mesmo que a implosão da estrela acaba com 200 milhões de vidas inocentes. Geordi é resgatado da nave Klingon. Picard não consegue impedí-lo de lançar o míssil, enquanto que a Enterprise se envolve numa batalha com os Klingons, que são destruídos. Contudo, o núcleo da Enterprise entra em estado crítico e explode, lançando a seção disco numa aterrisagem forçada no planeta. A estrela implode, matando a todos. Picard e Soran entram no Nexus. Picard revive a vida que podia ter tido, mas não teve. É então que percebe que para restaurar o passado, ele precisará de ajuda. Assim, ele recorre a Kirk. Após convencê-lo de que o Nexus não é real, os dois capitães voltam a Veridian e impedem Soran de lançar o míssil. Infelizmente, Kirk morre na luta. O filme termina com Picard enterrando a lenda e a tripulação da Enterprise sendo resgatada por naves da frota.


De cara se percebe como os roteiristas tiveram de improvisar* para fazer esta trama funcionar. É por esse e outros motivos que o filme não funciona tão bem quanto deveria.


*Uma das idéias originais de Braga era colocar as duas Enterprises em rota de colisão, se enfrentando em batalha. Impraticável, mas interessante.


O início do filme é interessante, mas parece mais um minifilme separado do resto da trama. Há um certo artificialismo nessas cenas, e muitas delas fazem a tripulação da Enterprise B parecer incompetente demais para que Kirk se sobressaia como o herói em meio à crise do resgate. Outro detalhe que se percebe é o uso de Scotty e Chekov em cenas que claramente haviam sido escritas para Spock e McCoy.


DeForest Kelley já estava aposentado. Leonard Nimoy, que já havia trabalhado com Berman na Nova Geração, até foi chamado para dirigir o filme. Contudo, Nimoy não gostou do fato de ter sido chamado quando a trama já estava bem desenvolvida e percebera que a Paramount tinha tanto controle que ele não teria tanta liberdade criativa. Por isso, ele abriu mão da oportunidade. Mesmo Nichelle Nichols e George Takei também não retornaram até porque de certa forma, a jornada do elenco original já havia terminado no último filme.


O filme foi dirigido por David Carson, que já havia dirigido vários episódios da Nova Geração (incluindo o excelente e impactante Yesterday's Enterprise) e também o episódio-piloto de Deep Space Nine (além de alguns outros). Carson era um diretor de TV, acostumado a seguir o padrão estabelecido pelos produtores. No caso, Star Trek era a estética e sensibilidade visual de Gene Roddenberry que foi mantida por Berman. Um dos fatores positivos do filme sem dúvida são seus visuais. Carson sempre se sobressaiu dentre os demais diretores do seriado ao gerar fortes imagens. Com o orçamento e o cronograma de um filme, ele consegue bem mais que isso. É verdade que em matéria de orçamento, o filme não foi nem um pouco mais caro que os anteriores, mas a equipe de Berman já estava especializada em extrair imagens de qualidade dentro dessas limitações, o que fizeram de Generations o filme com melhores visuais desde o primeiro. O orçamento e a escala permitiram também os designers a refazer a ponte de comando da Enterprise, criando um resultado final de alto contraste e impacto visual. Nunca que a ponte seria filmado desta forma durante o seriado, com uma direção de fotografia marcante feita pelo já falecido John A. Alonzo.


A trilha foi composta por Dennis McCarthy, que foi o compositor principal da Nova Geração, Deep Space Nine e posteriormente Enterprise (além de compor vários episódios de Voyager). O estilo de McCarthy sempre foi melódico e contido, bastante distinto dos estilos temáticos e bombásticos de compositores como Jerry Goldsmith e James Horner. Não é a melhor das trilhas, mas se encaixa bem com o teor do filme.


Tematicamente, o filme lida bastante com o conceito de mortalidade. Picard lida com a morte do irmão e sobrinho. Tanto Guinan quanto Soran fugiram para o Nexus para não ter de lidar com a morte de entes queridos nas mãos dos Borg. Kirk consegue morrer duas vezes no mesmo filme. A primeira que foi na verdade sua entrada no Nexus, mas que foi vista como morte por seus compatriotas do Século XXIII. A segunda morte sendo a definitiva.


O filme funciona melhor quando lida com a tripulação de Picard e seus esforços para desvendar a questão de Soran estar destruindo estrelas. Uma subtrama que não tem o mesmo êxito envolve o Comandanta Data instalando o chip de emoção que seu criador, o Dr. Noonien Soong, havia dado para ele no seriado. A tentativa dele lidar com novas emoções não complementa o resto do filme de maneira alguma. E certas situações acabam sendo muito forçadas, sacrificando a integridade do andróide em função de piadas baratas.


Uma cena de Data que funciona bem é a cena na cartografia estelar onde ele lida com a culpa de deixar Geordi ser capturado, e Picard tem de forçá-lo a fazer seu trabalho em descobrir o paradeiro de Soran. Belíssimos visuais e uma bom conflito de personagens que flui de forma natural.


Fica duvidosa também a inclusão das irmãs Lursa e B'Etor, introduzidas na série. Supostamente, isso foi uma decisão da Paramount, em que Klingons tinham que participar como vilões. Mas não faz muito sentido colocá-las como aliadas de Soran, e menospreza um pouco o quanto Soran teria justificativa em sua jornada homicida. Se bem que se fosse para criar simpatia no vilão, não teriam escalado Malcolm McDowell. O motivo principal da inclusão desses Klingons renegados (afinal, ainda tinha um tratado de paz com a Federação neste período) foi uma manobra dos roteiristas para pôr um fim a Enterprise D. O rapto de Geordi e o uso do VISOR para explorar as fraquezas da nave foram uma manobra de roteiro descarada. Destruir a Enterprise de Picard tinha um único motivo: permitir a criação de uma nova nave para futuros filmes.


Não vou dizer que não funciona, até porque tanto a batalha quanto a aterrisagem forçada do disco no planeta são excelentes. Sempre que tinham de separar o disco da seção motor da nave na série, era uma situação forçada demais como se tinham de achar uma justificativa para usar as capacidades do brinquedo*.


Um fato interessante é que Moore e Braga haviam tido a idéia para a aterrisagem forçada do disco durante o seriado. Esta era para ser a trama do episódio final da sexta temporada, mas a iniciativa era complexa demais e cara demais para ser produzida no seriado e foi vetada.


*Ironicamente, o modelo da Enterprise de Kirk usado nos seis primeiros filmes também tinha a capacidade de separar o disco. Inclusive, tinha uma cena semelhante no roteiro do primeiro filme, mas acabou sendo cortada.


O filme cambaleia e cai duro no chão quando Picard entra no Nexus. A idéia de Picard ter uma família celebrando natal não faz sentido nenhum. Em primeiro lugar, numa sociedade que havia superado crenças religiosas ou obsessões materiais, a idéia de celebrar natal não se encaixa. Em segundo, Picard já era estabelecido como um homem dedicado ao trabalho que não tinha tempo para família. Mesmo se Picard tivesse algum arrependimento do rumo que tomou, não acredito que ele tivesse uma vontade tão mundana de ter uma família estilo comercial de margarina. Quem assistiu ao episódio The Inner Light na série sabe muito bem que tipo de vida Picard gostaria ter tido caso não tivesse sido capitão.


Mas o problema maior do Nexus é que Picard não faz nenhum esforço para realizar que tudo aquilo não passa de uma ilusão e passa o resto do filme tentando convencer Kirk do mesmo. Em seguida, tudo que eles tem de fazer é desejar sair do Nexus e assim o conseguem, na época e local mais convenientes possível que é em Veridian III, justamente antes do míssil ser disparado.


No comentário que gravaram para o DVD, tanto Brannon Braga quanto Ron Moore debatem a lógica desse terceiro ato. Se estão numa existência atemporal, com a capacidade de sairem para onde quiserem, porque Kirk e Picard iriam se colocar na mesma situação que Picard havia falhado em prever? Por que não voltar alguns meses antes e não prender Soran enquanto está no banheiro ou algo parecido? Como Braga afirma, não se pode deixar o público fazer essas hipóteses. A trama tem de ser mais bem amarrada.


No fim das contas, o filme jamais iria agradar a todos os fãs. Matar Kirk sempre foi uma decisão controversa. Mesmo Ron Moore, um fã ardente da série original, sentiu forte culpa ao datilografar a morte de seu herói de infância. Esse é outro ponto que Moore e Braga concordam*. A morte de Kirk jamais seria unânime. Para muitos, Kirk é um mito, e a idéia de que se pode matar um mito sempre terá seus detratores. Spock sobreviveu graças à demanda dos fãs e o uso prático do misticismo vulcano. Como humano, Kirk não teria a mesma oportunidade.



William Shatner faz um belíssimo trabalho em sua última aparição como o personagem, mostrando a velhice, o arrependimento e até mesmo uma irreverência cômica que nem sempre o personagem teve mas foi adquirindo com o passar dos anos. Kirk uma vez disse no quinto filme para Spock e McCoy que enquanto eles estivessem juntos, ele jamais morreria. Se morresse, seria sozinho. Felizmente, ele teve Picard ao seu lado em seus momentos finais.


*E já que venho citando o nome deles o post inteiro, recomendo fortemente que fãs assistam ao DVD/Blu-Ray do filme com comentários em áudio dos dois roteiristas. Ron Moore e Brannon Braga tem imensa experiência com a franquia, tendo trabalhado na maioria dos seriados, e são capazes de examinar objetivamente, e com franqueza, tudo que deu errado neste filme. Geralmente, filmes blockbusters não possuem material extra com postura crítica até porque estúdios não gostam sempre de publicidade negativa.


Vale mencionar também que o confronto final entre Kirk e Picard contra Soran tinha um final diferente. Originalmente, Kirk era atingido mortalmente por um disparo de phaser em suas costas por parte de Soran. Quando o primeiro corte do filme foi exibido para executivos da Paramount, todos ficaram silenciosos sem reagir a cena. Logo após a exibição, a presidente do estúdio, Sherry Lansing, se reuniu com Berman e afirmou que o filme era bom, mas tinha um péssimo final, e em seguida financiou uma série de refilmagens. Foi assim que Moore e Braga reescreveram o terceiro ato, criando a situação em que Kirk cai da montanha junto com os destroços de uma ponte após recuperar o controle remoto que opera o míssil. Essas cenas foram filmadas em Valley of Fire, próximo de Las Vegas.


Picard dá uma boa resumida nos temas do filme em seu final. O que importa nessa vida não é o quanto vivemos, e sim como vivemos nossas vidas. Afinal de contas, somos todos mortais. E no fim, Kirk morreu fazendo uma diferença, salvando inúmeras vidas mesmo que não estando no comando de uma nave, que sempre foi seu propósito principal.


No fim das contas, o filme rendeu dinheiro na bilheteria mesmo com críticas divididas. O simples fato do filme colocar Kirk e Picard juntos em cena garantiu que o público viria independente da qualidade. Foi um evento tão badalado e divulgado na mídia que até rendeu uma capa na Revista Time.


Kirk passou desta pra melhor, e a tocha passou para Picard e sua tripulação, com futuros filmes garantidos sob a produção de Berman. Enquanto isso, Berman tinha de cuidar de dois seriados ao mesmo tempo, Deep Space Nine e Voyager.


Fique com a cena final de James T. Kirk, logo abaixo:




Posted in 0 comentários Postado por Eduardo Jencarelli às 12:05