Morre Jonathan Demme

(26 de abr de 2017)




Mais um que foi embora muito cedo. Jonathan Demme morreu nesta manhã em Nova York, devido a complicações de câncer do esòfago. Ele tinha apenas 73 anos de idade.


Demme foi um dos diretores mais interessantes de se ver nesses últimos 40 anos, e sua carreira pôde ser definida pela versatilidade. Ele nunca foi própriamente um diretor autoral. Sua filmografia nunca foi reflexo de sua personalidade e nunca teve uma marca registrada. Geralmente, quando se assiste a um filme de alguém como Spielberg ou Tarantino, você tem uma idéia do que virá. Nunca foi o caso de Demme. Nunca ficou preso a estilo ou gênero. Ele sempre adaptou seu trabalho de direção ao conteúdo sendo trabalhado, seja qual ele fosse. Fez de tudo.


Somente um diretor que dirigiu tanto Stop Making Sense (documentário sobre a banda Talking Heads) como o remake de Sob o Domínio do Mal pode ser classificado desta forma.


Mesmo que nem todos lembrem de Demme, certamente irão lembrar de seus dois trabalhos mais famosos: O Silêncio dos Inocentes e Filadèlfia. O trabalho que ele fez com Jodie Foster e Anthony Hopkins ganhou o merecido destaque, e possibilitou que o filme levasse cinco Oscars. A performance elétrica de ambos os atores gerou algumas das melhores cenas de suspense já vistas no cinema. Foi graças a Demme que foi que capaz de extrair essa tensão do material original escrito por Thomas Harris. Demme e Hopkins conseguiram fazer com que o público amasse o vilão, um canibal.


Filadélfia não foi apenas um golpe emocional como filme. Foi um merecido chute na discriminação que os gays sofriam por serem quem eram, e expôs de forma nua e crua como a AIDS destrói o ser humano. Também expôs a hipocrisia de uma sociedade incapaz de enxergar essas vítimas como pessoas dignas de terem os mesmos sonhos, paixões e desejos como qualquer um. 23 anos desde o lançamento original, e o filme mantém esse mesmo impacto. Digamos que a cena final é devastadora. A morte de Andrew Beckett se transforma na celebração de sua vida desde a infância. A partir do roteiro brilhante de Ron Nyswaner, Demme dirigiu performances que redefiniram as carreiras de Tom Hanks e Denzel Washington.


Algo que não se pode negar: Jonathan Demme foi um dos diretores mais originais numa cidade onde originalidade é pouquíssimo respeitada. Ele nunca dirigiu por fama ou se vendeu para um projeto blockbuster. Muito pelo contrário, ele sempre seguiu seu caminho e fez aquilo que lhe interessava.


Menciono isso, porque nos últimos anos, Demme ficou mais afastado do cinema. Como a indústria foi deixando de produzir projetos originais, ele acabou migrando para a televisão, onde ainda é possível contar histórias distintas sem ficar tão preso as demandas de estúdios e mercado. Ele dirigiu dois dos melhores episódios da série The Killing. Também dirigiu dois episódios de Enlightened.


Uma coisa pode se ter certeza. Demme não será esquecido. Seu trabalho exemplar fala por si só. E quem trabalhou com ele sempre o admirou. Este fará falta no cinema.



Posted in Postado por Eduardo Jencarelli às 09:47  

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