A ditadura da dublagem

(29 de jun de 2015)



Nesse domingo, fui assistir a uma sessão de Divertida Mente, o mais novo sucesso da Pixar que se encontra em cinemas por todo o país. Como já esperava, foi uma sessão inesquecível, repleta de momentos emocionantes e uma trama cativante repleta de personagens bem desenvolvidos.


Mas não foi esse o motivo pelo qual escrevi esse post. A questão é mais embaixo. Fui ver uma sessão no UCI New York City Center as 7:45 da noite desse domingo. Era a única sessão legendada do filme disponível. Quando comprei minha cadeira no Ingresso.com, fiz questão de conferir quantas sessões legendadas haviam disponíveis....


Minha descoberta foi decepcionante: apenas três salas de cinema, e apenas uma sessão legendada naquele dia por sala*.


Repito: três salas de cinema em todo o território do Rio de Janeiro, pelo menos de acordo com o mecanismo de busca do Ingresso.com.


Há algo de errado com essa proporção de mercado. Se isso não é uma falta de respeito com o espectador que procura entretenimento legendado, não sei mais o que qualificaria como tal.



*E ainda por cima, teve de ser uma sessão 3D com uso de óculos obrigatória. Como era a única sessão legendada disponível, tive de aceitar essa condição. Mas o debate quanto ao excesso de cópias 3D pode ficar para outro post....


É claro que sempre que estoura o debate entre filmes dublados e legendados, o estúdio sempre sai com uma nota de teor diplomático tentando explicar sua decisão, geralmente citando motivos pelos quais lançam filmes com uma porcentagem desigual pendendo para as cópias dubladas.


E geralmente eu concordo com os motivos pelos quais eles tomam essa decisão. Vivemos em um mundo em que o espectador não é incentivado a leitura ou ao domínio de outras línguas. Dublagem facilita a passividade de quem vai ao cinema simplesmente a procura de um descanso e simples entretenimento.


E isso não é um fenômeno exclusivamente brasileiro (que tem a questão de classes baixas menos escolarizadas como público-alvo). Se for aos EUA, você perceberá que o povo lá nunca assiste a filmes legendados, preferindo a dublagem norte-americana. Em outros países, como a França ou Espanha, existem movimentos contra a legendagem, não só para proteger a classe de dubladores que existe, mas também visando limitar a influência do produto cultural norte-americano, a fim de preservar sua própria cultura nacional.


Também entendo perfeitamente o porquê de animações terem uma porcentagem infinitamente maior de cópias dubladas. Crianças são um público ainda em fase de aprendizado, e muitas vezes precisam de um auxílio para seguir a trama. Mas, ao mesmo tempo, considero isso um verdadeiro desrespeito para aqueles que são capazes de ler, escrever e entender outra língua desde cedo. Por exemplo, eu, aos sete anos de idade, já assistia a filmes legendados sem nenhum problema.


E tem outra questão a ser abordada: quando o braço distribuidor da Disney resolve lançar um filme da Pixar no Brasil, e resolve fazê-lo numa proporção de 98% de cópias dubladas, isso demonstra uma falta de conhecimento tanto do público-alvo quanto do próprio filme que estão lançando. Filmes da Pixar não são destinados exclusivamente a crianças. Muitos deles possuem nuâncias e complexidades que somente pessoas mais experientes são capazes de captar (e existem crianças igualmente capazes). O próprio Divertida Mente é um exemplo clássico. É um verdadeiro estudo psicológico para pessoas em busca de conteúdo especializado, ao mesmo tempo que mostra personagen que divertem o segmento infantil. Se fosse um filme como Velozes e Furiosos, entenderia completamente a porcentagem superior de cópias dubladas, até pelo estilo de filme sendo exibido e a qual público ele é direcionado. Mas estamos falando de uma produção Pixar, e muitos sabem o nível de inteligência e dedicação que vai em cada uma de suas produções, como já analisei anteriormente.


E o simples fato é que com apenas três salas disponíveis, muitos espectadores que apreciam obras legendadas ficarão com opções limitadas.


E porque ver legendado? Isso tem vários motivos. No meu caso, eu faço questão de assistir qualquer filme da forma como o diretor o concebeu. Isso inclui ouvir as performances verbais dos atores - ou dubladores originais de animações - escolhidos a dedo por esse diretor. A Pixar escolheu Amy Poehler para interpretar a personagem Alegria no filme. Foi um acerto escolherem uma comediante veterana que é conhecida por seu bom humor e que sempre demonstra esse espírito de diversão e alegria em qualquer aparição.


Respeito os dubladores brasileiros, e acho que são profissionais mais do que capazes de dar uma performance distinta que seja igualmente capaz de trazer a mesma vitalidade a esses personagens. Mas no fim das contas, eles não foram a escolha original do diretor.


Considero isso um fator essencial, e não me limito apenas a filmes norte-americanos neste quesito. O filme pode ser francês, japonês, finlandês, italiano, iraquiano, e assim por diante. Sempre irei preferir a obra original.


Será que 99% do público prefere realmente filmes dublados? Não sei dizer. Não tenho a capacidade ou recursos para realizar um censo detalhado que analise isso. Mas também acho que o número de pessoas que deseja filmes legendados com o áudio original supera a marca de 1% com facilidade. A questão é que as distribuidoras não ouvem as opiniões desse segmento. Elas também não estão dispostas a realizar essa pesquisa. Ou se realizam, fazem um péssimo trabalho, porque o resultado é extremamente generalizado e raso; dá para se perceber quando uma pesquisa é feita às pressas.


É óbvio que estúdios almejam ganhar dinheiro. É evidente que filmes dublados sempre contarão com lotação de salas exibidoras. É assim que se banca o cinema. Contudo, acho que reduzir o número de cópias legendadas a esse ponto só causará um efeito: afastará o espectador mais especializado dos cinemas e em direção a pirataria ou mídias alternativas como a Netflix, que disponibilizam ambas as cópias dubladas e legendadas de todos os filmes em seu acervo. É uma questão de dar poder de escolha ao público.


Mas essa questão pode ficar para um futuro post....



Posted in Postado por Eduardo Jencarelli às 10:17  

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