James Horner (1953-2015)

(23 de jun de 2015)




Morreu em um acidente aéreo nesta segunda-feira o compositor James Horner. Ele tinha 61 anos.


Formado em estilo clássico, Horner ficou compôs a trilha sonora de mais de 150 filmes desde o final da década de 1970, e muitos desses clássicos são lembrados até hoje, tais como Cocoon, 48 Horas, 48 Horas - Parte 2, Fievel - Um Conto Americano, O Milagre veio do Espaço, Willow, Querida Encolhi as Crianças, Campo dos SonhosJogos Patrióticos, Perigo Real e Imediato, Jumanji, Mar em Fúria, Casa de Areia e NévoaO Menino do Pijama Listrado e O Espetacular Homem-Aranha, dentre muitos outros.



Após trabalhar em filmes de Roger Corman, o primeiro grande trabalho de Horner foi em Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan. De acordo com o diretor Nicholas Meyer, o orçamento do filme era tão baixo (cerca de 10 milhões de dólares) que eles não tinham como bancar o cachê* de um compositor como Jerry Goldsmith (que havia composto o primeiro filme de Jornada; também já falecido). Horner surgiu como uma alternativa viável, no fato de que ele tinha o treinamento e a capacidade de criar uma trilha sonora que transmitisse uma atmosfera naval e grandiosa, mas ao mesmo tempo diferente do trabalho que Goldsmith havia feito com a franquia até então. Horner adaptou os temas originais de Alexander Courage e fez um trabalho tão aclamado que Leonard Nimoy o convidou para compor Jornada nas Estrelas III.


*UPDATE: Ironicamente, quando Meyer foi dirigir Jornada VI, Horner era sua primeira escolha para compor o filme, mas ele havia tornado-se caro demais para a produção (e a Paramount estava tentando controlar os custos). Isso forçou Meyer a procurar o novato Cliff Eidelman.



O domínio de orquestra, melodia e ritmo que Horner tinha ia além das expectativas. Ao mesmo tempo, ter esse domínio e ter o talento necessário de criar obras originais, capazes de gerar um contexto emocional em cada filme, mostra que Horner e seu trabalho foram essenciais para cada uma dessas produções.






Mais tarde, Horner compôs a trilha de Aliens - O Resgate. Esse foi o início da parceria entre ele e o diretor James Cameron. Ele voltaria a compor para Cameron em Titanic e Avatar. Foi com seu trabalho em Titanic que Horner levou dois Oscars para casa, um pela trilha sonora do filme e outro por ter composto a canção My Heart will go on, que foi cantada por Celline Dion.




Talvez o maior trunfo de sua carreira foi ter conhecido Mel Gibson. Ao assumir a trilha de Coração Valente, Horner tomou como inspiração músicas folclóricas escocesas e irlandesas, e criou seu trabalho mais impactante. Mais do que qualquer elemento do filme, ao discutir o impacto de Coração Valente, não dá para deixar a música de lado. Ela é o filme. Foi uma obra-prima que merecia ter levado o Oscar. Quando você assiste ao filme e relembra a cena em que William Wallace grita por liberdade a beira da morte, você lembra de imediato a melodia de Horner, trazendo todas aquelas emoções à tona.




De qualquer forma, o sucesso do filme e da trilha levaram Gibson a colaborar com Horner novamente em Apocalypto.



Horner, já o preferido de James Cameron e Mel Gibson também ganhou outro diretor colaborador: Ron Howard. Após seu trabalho tanto em Willow quanto em Apollo 13, Howard o colocou no comando da trilha sonora de Uma Mente Brilhante. A trilha inicial deste filme ('O Caleidoscópio da Matemática') é tão bem construída que lembra uma dança e acaba pintando um retrato da mente de John Nash.


Ao trilhar o caminho entre momentos grandiosos e emoções íntimas, Horner mostrava uma versatilidade que poucos compositores tinham.



Mas como qualquer pessoa, Horner não era perfeito ou ausente de falhas. Ao analisar a trilha de Jornada nas Estrelas III, pode se perceber o início de uma tendência que o compositor teria ao longo de sua carreira: reciclar trilhas. Boa parte da trilha do filme foi composta de sequências compostas pro filme anterior.


Ao mesmo tempo, essa tendência pode ser vista em outras produções. A trilha principal de Comando para Matar usa uma passagem ritmica idêntica baseada em outra trilha que ele compôs para 48 Horas. A mesma passagem foi reutilizada em O Dossiê Pelicano e também Perigo Real e Imediato. A abertura de Mar em Fúria também possui semelhanças com boa parte da trilha do filme sobre Jack Ryan.


Além disso, muitos na comunidade musical inclusive acusaram Horner de plágio direto em várias de suas trilhas. Uma das cenas de O Milagre veio do Espaço utiliza um trecho musical que alguns alegam ter sido utilizado numa versão musical de Cinderela, e que teria sido composto por Sergei Prokofiev. Outro caso parecido mais conhecido foi o da trilha principal de Coração Valente, que possui o mesmo tom e ritmo dessa trilha composta pela banda instrumental japonesa S.E.N.S.:





Independente das questões morais e éticas quanto ao uso de música em um filme, certamente entendemos o desafio que é para Horner ter de criar composições distintas para tantas produções no ritmo que sempre escreveu. Não existe tarefa mais difícil do que manter a originalidade e se superar dia após dia. O simples fato de Horner ter sido capaz de criar tantas obras originais já fala por si só. Ele ter pego emprestado obras de outros autores pode ser visto como uma admiração do próprio compositor pelo trabalho dos outros.


E a mais simples verdade é que nenhum compositor é inocente dessa prática. Todos que tiveram uma carreira deste porte chegaram a fazê-lo em alguma época. Hans Zimmer o faz sempre*. Uma questão que fica em aberto é o fato de que reconhecer a música de outra obra pode denegrir a identidade do filme que você está assistindo. Em casos como Jornada, dá para entender, já que trata-se do mesmo universo com os mesmos temas. O problema é quando se descobre que a melodia de Coração Valente tem uma origem completamente alienada do mundo que Gibson criou.


* Vale lembrar que Zimmer usou as trilhas criadas por Klaus Badelt para as sequências de Piratas do Caribe, e ninguém foi capaz de colocar Badelt nos créditos dos filmes pela obra original.


Dois filmes compostos por Horner ainda estrearão nos cinemas. Southpaw, drama de boxe estrelado por Jake Gylenhaal e Rachel McAdams, e The 33, filme baseado no desastre da mina no Chile, que tem Rodrigo Santoro no elenco.



Horner fará falta. Sãos poucos os filmes atuais que dedicam o tempo necessário para criar uma trilha marcante. Espera-se que não se menospreze os esforços de compositores que amam aquilo que fazem. Essa paixão existe porque houve pessoas como Horner, dedicadas a criar e inspirar todos aqueles que buscam explorar essas emoções. Assistir a um filme é uma experiência emocional, e dentro do contexto audiovisual, o poder que a trilha dá às imagens é inestimável. Não é a toa que os fãs de Star Wars lembram de música de John Williams. Ao mesmo tempo que é a trilha é a identidade do universo de Star Wars, ela também representa as sensibilidades de alguém como Williams.


É o mesmo caso com Horner. Deve-se preservar o trabalho deles, e sempre incentivar novos talentos a seguir o mesmo caminho para que obras como essa jamais sejam esquecidas.









Posted in Postado por Eduardo Jencarelli às 13:05  

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