Que o Netflix tem tido um crescimento exponencial não é nenhuma novidade. A cada semana que passa, o serviço de streaming lança novas séries e outras produções originais. Ciente de que os estúdios não deixariam ela lucrar sozinha com seu catálogo, ela investe mais e mais em conteúdo original.


Já os estúdios vem movendo suas obras para outras empresas de streaming ou criando suas próprias (caso da Disney).


É evidente que para a Netflix é uma escolha natural manter esse ritmo de crescimento. A questão que desejo levantar é se isso pode ser mantido a longo prazo.


Sempre questiono crescimento acelerado em qualquer empreendimento. Até que ponto isso se pode ser mantido de forma saudável?


Mas também penso que cada empresa tem o direito de fazer suas próprias escolhas, desde que entenda sua própria história que a levou até ali.


Por que estou falando disso? Vamos recapitular a mais nova revelação dessa semana.


Na última segunda-feira, o novo executivo da HBO, John Stankey, fez um pronunciamento a respeito do futuro do canal. Ele expressou o desejo de expansão, buscando ampliar a empresa, tornando-a mais ampla, e investindo pesadamente em mais conteúdo, tudo a fim de "ocupar mais tempo de seus espectadores". A idéia seria transformar a HBO numa obrigação diária para consumidores.


Ele não cita o nome da Netflix, mas fica claro que ele deseja copiar o mesmo modelo da gigante de streaming. Um dos pontos centrais das produções originais Netflix é seu compromisso em engajamento com o público, mantendo-o mais tempo possível conectado ao sistema. Este é o modelo que Stankey deseja adotar para a HBO.


E esse seria um péssimo rumo para o canal.


Um serviço por assinatura como a HBO sempre operou num modo bem seletivo e distinto, preferindo investir em poucas produções. E geralmente, passava anos desenvolvendo cada projeto (ambos os casos de Game of Thrones e Westworld). E o resultado final fala por si só. Séries aclamadas e respeitadas. Antes do sucesso mundial de GoT, nível de audiência não chegava a ser um fator importante no canal, até porque ele não depende de patrocinadores para se manter. O custo de assinatura de cada usuário já paga as despesas do canal.


Sempre foi um modelo de qualidade ao invés de quantidade.


Não que o Netflix não tenha seus méritos. A disposição da companhia de Ted Sarandos em investir em tantas obras de tantos gêneros diferentes com vozes distintas fala por si só. Séries como A Casa de Papel, Sense8, Orange is the New Black e 13 Reasons Why mostram que o modelo funciona por enquanto, cativando públicos afora.


Mas pessoalmente, acho difícil para a HBO mudar a forma como desenvolve seus projetos. Além de criar dificuldades com criadores de conteúdo, isso também criaria o risco de alienar boa parte dos espectadores acostumados com o que o canal oferece, seja uma narrativa sociológica estruturada como The Wire ou uma dança de dragões num mundo de fantasia amplo como em GoT.


Se o desejo de Stankey é lucro, ele pode abandonar qualquer pretensão de atingí-lo, até porque adotando o modelo Netflix, é evidente que a HBO perderá dinheiro. É uma questão de analisar as planilhas da Netflix. O canal gasta bilhões por ano em conteúdo original. E até agora não conseguiu recuperar esse investimento, que também inclui a expansão global para 190 países.


E é mais caro para um espectador assinar um pacote HBO na NET do que assinar uma conta no Netflix. Dentre as duas opções, ele sempre escolherá a mais barata. Ao mesmo tempo, a HBO corre o risco de perder sua identidade ao investir em 200 obras por ano ao invés de 10. O canal jamais teria tempo e disposição de monitorar cada projeto com o devido cuidado que tem hoje. O resultado seria uma perda de qualidade para o canal como um todo.


O problema de uma gigante como a Netflix é que para cada série de qualidade que lançam há também pelo menos 20 outras obras decepcionantes em seu catálogo*.


*A própria qualidade de House of Cards é duvidosa se comparar a obras de temática política como The Wire ou até mesmo The Good Wife).


Mas o objetivo deles não é necessariamente criar a melhor série já vista, e sim criar algo bom o suficiente para prender o tempo e atenção do espectador. E cabe a HBO decidir se ela está disposta a seguir esse modelo da Netflix e arriscar perder seu selo de qualidade. Durante 20 anos, o canal sobreviveu graças a força de suas produções originais, com pouca audiência mas muitos prêmios e visibilidade.


Enfim, acho que a HBO arrisca muito se tentar competir de forma tão direta com a Netflix, até porque ela não possui o mesmo capital nem de perto. Mas o que a diferencia é também seu ponto mais forte. Entendo que o canal esteja preocupado em manter sua fatia de mercado. Mas não acho que o domínio atual da Netflix tenha qualquer chance de afetar o nicho de mercado da HBO, mesmo que TVs tradicionais percam espaço para streaming a longo prazo.



Posted in Postado por Eduardo Jencarelli às 12:30  

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